Paixão no trânsito

Uma vez li uma poesia sobre uma paixão que nasceu dentro de um ônibus. Achei linda e lembrei das minhas paixonites que tive na época em que ainda utilizava o transporte público.

A leitura foi boa, mas não gostei da ideia que passou, como  se fosse uma exclusividade e não houvesse mais romantismo ao utilizar o carro como meio de transporte. Acho que isso é besteira.

É claro que pode acontecer uma paixão no trânsito. Agora mesmo estou parada em um engarrafamento e acho que está rolando um clima entre eu e o motorista da sandero vermelha que está na faixa ao lado.

Trocamos alguns olhares e ele sorriu pra mim, mas a faixa dele andou um pouco e ele parou na distância de uns três carros na minha frente.

Logo também chega a minha vez de andar e devo parar ao lado dele novamente. Pretendo passar meu telefone para ele. Inclusive, já vou deixei anotado em um pedaço de papel.

Como um animal faminto observando sua caça, não tiro os olhos da sandero vermelha. Dessa forma, noto que o motorista está olhando pelo retrovisor.

Será que está pensando o mesmo que eu?

Descubro que não! Finalmente minha faixa começou, porém, percebendo a movimentação no trânsito, o filho da puta mudou de faixa sem dar seta.

Ele entrou na minha frente bem na hora que eu ia andar. Maldito! Era a minha vez! Por um acaso ele acha que a pressa dele é mais importante que a minha?

Ainda por cima, o filho da puta quase derrubou um motoqueiro! E para completar, olha lá o caralho do sinal fechando.

Agora tenho que esperá-lo abrir de novo por causa da porra da sandero vermelha! Porque aquele cara é um egoísta que só pensa no próprio umbigo. Tomara que capote, morra e vá direto para o inferno, onde sua alma ficará queimando lentamente durante toda a eternidade!

Em pensar que cogitei me envolver com aquele escroto… Quero é que se foda!

Amor platônico

Todo santo dia ela passava por mim, acenava com a cabeça, dava bom dia e sorria. E toda vez, sem exceção, meu coração disparava como se quisesse ser ouvido por ela.

Eu retribuía sorrindo também, mas certamente sem a mesma graciosidade. Afinal, qualquer sorriso num rosto que não seja o dela, é feio.

Nunca tive coragem de puxar uma conversa que fosse diferente disso. Também acho que não havia muito para ser dito. Infelizmente, algumas paixões só podem existir mesmo no campo das ideias.

Teve um dia que ela esqueceu a carteirinha e eu fui liberar a catraca para que pudesse entrar. Foi o momento em que nossos corpos ficaram mais próximos. O perfume que emanava de seus cabelos cacheados invadiu minhas narinas e acalentou meus sentidos, me transportando para uma espécie de paraíso na terra.

Senti a mesma sensação de alguém com dependência química diante de sua maior fraqueza.

Mas, não fiz nenhum elogio. Mantive o controle de minhas emoções e respeitei meus limites. A aliança em sua mão esquerda transmitia uma mensagem tão clara quanto a pele do gado marcada com as iniciais de seu dono. Eu tinha que respeitar aquilo.

A última vez que a vi, ela estava ao lado do marido. Passou direto por mim sem me cumprimentar, enquanto ele me encarou explicitamente. Seus olhos me encaravam como se pudessem enxergar minha alma através do decote de meu vestido.

Provavelmente ela percebeu e, conhecendo a escrotidão do companheiro, decidiu frequentar outra academia. Tudo na vida é uma questão de escolha. Algumas pessoas preferem travar uma luta com os galhos ao invés de cortar logo a raiz do problema. Eu era um galho.