A carta

Francisco apagou o fogo que estava sob a panela com água. Despejou o líquido fumegante dentro de um coador encardido e o cheiro do café se espalhou pela casa.

Encheu sua caneca com a bebida e ficou encostado na bancada da cozinha observando seu neto, que estava mexendo no celular.

O teto podia desabar que o garoto não largava aquela coisa! Mas, Francisco tinha desistido de brigar por causa daquele aparelho. Afinal, até ele tinha seus vícios e suas dependências.

Pensando nisso, levou a mão ao bolso da camisa social e pegou o maço de cigarros que estava ali. Era a hora de sua tragada matinal.

Em frente de casa, enquanto soltava uma fumaça azulada no ar como se fosse uma chaminé humana, viu o carteiro aproximando do seu portão.

O homem de camiseta amarela enfiou alguns papéis na caixinha e Francisco arremessou seu cigarro, ainda pela metade, na calçada e foi conferir as correspondências.

Pegou um envelope que se destacava dos outros e o abriu com cuidado. Retirou duas páginas lá de dentro e o perfume que emanava delas serviu para testar a qualidade do marca-passo instalado no peito do velho.

Seduzido pelas palavras escritas em letras cursivas, não viu quando seu neto passou correndo por ele com uma bola na mão.