A carta

Francisco apagou o fogo que estava sob a panela com água. Despejou o líquido fumegante dentro de um coador encardido e o cheiro do café se espalhou pela casa.

Encheu sua caneca com a bebida e ficou encostado na bancada da cozinha observando seu neto, que estava mexendo no celular.

O teto podia desabar que o garoto não largava aquela coisa! Mas, Francisco tinha desistido de brigar por causa daquele aparelho. Afinal, até ele tinha seus vícios e suas dependências.

Pensando nisso, levou a mão ao bolso da camisa social e pegou o maço de cigarros que estava ali. Era a hora de sua tragada matinal.

Em frente de casa, enquanto soltava uma fumaça azulada no ar como se fosse uma chaminé humana, viu o carteiro aproximando do seu portão.

O homem de camiseta amarela enfiou alguns papéis na caixinha e Francisco arremessou seu cigarro, ainda pela metade, na calçada e foi conferir as correspondências.

Pegou um envelope que se destacava dos outros e o abriu com cuidado. Retirou duas páginas lá de dentro e o perfume que emanava delas serviu para testar a qualidade do marca-passo instalado no peito do velho.

Seduzido pelas palavras escritas em letras cursivas, não viu quando seu neto passou correndo por ele com uma bola na mão.

Amor à primeira vista

A presença dele surtia certo efeito hipnótico sobre ela. Desde sempre. Suas palavras soavam como cânticos entoados por um coral de querubins.

Ela não disfarçava sua admiração. Quando falava dele, seus olhos brilhavam e quando ele se aproximava o coração vibrava de alegria.

Era uma sensação única. Algo tão intenso que nenhuma droga seria capaz proporcionar um efeito que se aproximasse daquilo.

Às vezes parecia que ele se esforçava para colocar aquele sentimento à prova. Encontrava diversas maneiras de irritá-la, decepcioná-la e desorientá-la. Como se quisesse demonstrar a todo custo que não merecia aquela devoção.

Mas, não conseguia. Ela sempre continuava ali. Como agora, que o espia enquanto ele conversa no telefone.

Distraído, ele demora a perceber que está sendo observado. Quando nota que ela está lá, lhe acena com um sorriso discreto. Porém, o suficiente para deixá-la explodindo de felicidade. No fundo, ela sabe que o sentimento é recíproco.

Ele desliga o telefone e vai ao encontro dela. Os dois se abraçam. Um abraço bem apertado. Então, ele pergunta:

“O que você tá fazendo aqui?”

“Fiz café e vim saber se você quer um pouquinho.”

“Tem bolo?”

“Tem.”

“Impossível recusar um convite desses, mãe!”

Depois disso, os dois vão para cozinha onde lancham e conversam durante um tempo, até ele precisar atender o telefone novamente.