Amor platônico

Todo santo dia ela passava por mim, acenava com a cabeça, dava bom dia e sorria. E toda vez, sem exceção, meu coração disparava como se quisesse ser ouvido por ela.

Eu retribuía sorrindo também, mas certamente sem a mesma graciosidade. Afinal, qualquer sorriso num rosto que não seja o dela, é feio.

Nunca tive coragem de puxar uma conversa que fosse diferente disso. Também acho que não havia muito para ser dito. Infelizmente, algumas paixões só podem existir mesmo no campo das ideias.

Teve um dia que ela esqueceu a carteirinha e eu fui liberar a catraca para que pudesse entrar. Foi o momento em que nossos corpos ficaram mais próximos. O perfume que emanava de seus cabelos cacheados invadiu minhas narinas e acalentou meus sentidos, me transportando para uma espécie de paraíso na terra.

Senti a mesma sensação de alguém com dependência química diante de sua maior fraqueza.

Mas, não fiz nenhum elogio. Mantive o controle de minhas emoções e respeitei meus limites. A aliança em sua mão esquerda transmitia uma mensagem tão clara quanto a pele do gado marcada com as iniciais de seu dono. Eu tinha que respeitar aquilo.

A última vez que a vi, ela estava ao lado do marido. Passou direto por mim sem me cumprimentar, enquanto ele me encarou explicitamente. Seus olhos me encaravam como se pudessem enxergar minha alma através do decote de meu vestido.

Provavelmente ela percebeu e, conhecendo a escrotidão do companheiro, decidiu frequentar outra academia. Tudo na vida é uma questão de escolha. Algumas pessoas preferem travar uma luta com os galhos ao invés de cortar logo a raiz do problema. Eu era um galho.

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O turista

Eu não gosto de gente feliz demais. Alegria gratuita é algo que me irrita profundamente.

Tanto que hoje acordei disposto a fazer um favor para a humanidade e matar o primeiro desconhecido que me der um “bom dia” na rua. Pretendo tirar o sorriso da cara dele com meu punhal.

Uma idosa se aproxima do banco em que estou sentado. Ela traz um saco de papel em uma das mãos. Provavelmente foi comprar pão na padaria para alimentar seus netos.

Porém, se depender de mim, eles ficarão com fome nesta manhã. Coloco a mão no bolso do casaco e aperto o objeto metálico que está lá dentro. Sinto o sangue se agitar dentro de minhas veias, aquecendo meu corpo.

Tensiono os músculos de minhas pernas e me preparo para o golpe. Mas, para minha surpresa, a velha passa direto sem nem olhar para mim.

Não posso negar que estou frustrado. Mas, não vou me abalar. Logo aparecerá um bobo alegre dando bobeira por aí.

Pronto! Lá vem um cara acompanhado por um desses cães minúsculos de gente fresca. O animal está adornado com um laço na cabeça.

Sem dúvida, esse cara é a vítima perfeita! Alguém que se dispõe a seguir um cachorro pela rua recolhendo suas fezes, deve acordar dando bom dia para as paredes.

Ele se aproxima e sinto a excitação tomar conta do meu corpo novamente. Decido que vou deixar o cão vivo para que ele possa lamber o sangue de seu dono na calçada.

Ouço sua voz, aperto o punhal com força, mas, logo percebo que ele não falou comigo. O idiota está conversando com o bicho de estimação!

Aquelas duas figuras patéticas foram embora sem falar comigo.

Li em algum lugar que o segredo para o sucesso está justamente em saber reconhecer suas derrotas. Reconheço que hoje não é o meu dia de sorte.

Levanto e vou embora em direção ao hotel que me abriga nesta cidade insólita. Deixo pra trás o banco vazio, ao lado de uma placa que diz: “Seja bem-vindo à Brasília”.

Colegas de trabalho

8:15

Ele redige um memorando quando Paulo, seu colega de trabalho, aparece em sua mesa:

-Você foi no show, né?

– Fui.

– Eu vi as fotos no Instagram… Foi sozinho?

– Sim.

– Ah… A Bia não gosta dessa banda?

– Não sei.

Ele continua olhando para o monitor enquanto Paulo vai embora pensativo em direção à copa.

9:00

Paulo retorno com um convite:

– Eu vou fazer um churrasco lá em casa no sábado. Tá afim de ir?

– Pode ser.

– A Bia não come carne, né? Vou fazer um espetinho vegetariano pra ela.

– Não precisa.

– Faço questão…

– A Bia não vai.

– Não vai? Por que?

– A gente terminou.

– Ah… Nossa. Que chato, hein?

– Tô bem. Pode ficar tranquilo, que tô bem.

16:30

Ele se levanta para pegar algumas cópias na impressora e encontra com Paulo no caminho, que se aproxima sorridente:

– A Cristina do RH tá solteira. Vou convidá-la pro churrasco de domingo…

– Não precisa, cara. Tô bem mesmo. Não quero me relacionar com ninguém por agora…

– Por que? Acha que tem volta com a Bia?

– Não tem volta. Só quero dar um tempo sozinho.

– Certeza?

– Certeza.

– Ahn… Posso fazer uma pergunta?

– Claro. Diz aí.

– Se importa se eu chamar a Bia pra sair?

23:20

Paulo abre os olhos e vê uma enfermeira trocando os curativos dos ferimentos em seu rosto.

Chapéu Vermelho

As pessoas sempre procuram alguém para fazer aquilo que elas não sabem ou não gostam de fazer. Essa é a essência que movimenta o mercado da sociedade. Por mais competente que o indivíduo seja, sempre existirá algo que ele não faça direito.

Foi essa percepção que fez Ribeiro se especializar em uma nova profissão. Há dez anos estava desempregado e hoje é uma referência em um trabalho que basicamente se resume a fazer algo que ninguém faria de bom grado.

Mesmo assim, passando de um vagabundo a um profissional bem sucedido em algo tão peculiar, ele também precisa de ajuda para executar uma atividade relativamente simples. Porque é assim que funcionam as engrenagens da vida.

Acontece que Ribeiro não gosta de entrar em lojas de roupas. Na verdade, não gostar é pouco. Ribeiro não suporta o atendimento superficial daqueles vendedores. Então, recorre à sua mãe para lhe ajudar nesse quesito.

É por isso que agora ele está encostado em seu carro, fumando um cigarro enquanto espera sua progenitora trazer o que encomendou para executar mais um trabalho. É importante dizer que por azar, ou ironia do destino, ele necessita de um chapéu novo para cada contrato que pega. É como se fosse uma espécie de marca registrada que ele tem.

Todos os seus clientes o conhecem como o Homem do Chapéu. Em sua casa há mais de cem chapéus organizados em uma estante, cada um com uma história diferente escondida em suas abas.

A mãe chegou e ele logo foi conferir sua mais nova aquisição. Porém, não escondeu sua decepção:

— Vermelho, mãe? A senhora comprou um chapéu vermelho?

— Sim. Qual é o problema?

— O problema é que chama muita atenção e eu não gosto de chamar a atenção…

— Deixa de ser besta. Esse é o mais bonito que tinha na loja. Mas, se tiver achando ruim, vai comprar você mesmo da próxima vez.

Relutante, Ribeiro jogou o chapéu dentro do carro. Sabia que não tinha escolha, pois nem ele e nem ela voltariam na loja para trocá-lo por outro. Os dois por motivos diferentes, é claro.

Mais tarde, ele conferiu a hora combinada e foi trabalhar. Chegando ao local indicado pelo contratante, não teve dificuldade para estacionar pois a rua estava vazia. Então, Ribeiro saiu do carro com seu chapéu vermelho e foi em direção ao endereço que lhe foi passado.

Era um pouco mais das onze horas da noite quando ele tocou a campainha da casa e, conforme foi lhe informado, uma mulher bonita, alta e com os cabelos cacheados abriu a porta. Naquele instante, ele não teve dúvidas que estava no lugar certo.

A mulher tencionou lhe perguntar, de forma solícita, o que ele desejava, mas não foi preciso. Ribeiro era um profissional e dispensava cerimônias.

Sem que qualquer palavra fosse emitida, ele sacou sua glock 43 e disparou duas vezes contra a cabeça da mulher, que caiu morta sem ter ideia do que tinha acontecido. Não poderia ser diferente, afinal mesmo se quisesse, e tivesse tempo, Ribeiro não poderia ajudá-la explicando os motivos de sua morte. Pois, também não os conhecia. Só estava ali para executar o trabalho que alguém não queria fazer pessoalmente.

Voltou para o carro, repousou o chapéu sobre o banco do passageiro e foi para a casa organizar o mais novo item de sua coleção.

Amor à primeira vista

A presença dele surtia certo efeito hipnótico sobre ela. Desde sempre. Suas palavras soavam como cânticos entoados por um coral de querubins.

Ela não disfarçava sua admiração. Quando falava dele, seus olhos brilhavam e quando ele se aproximava o coração vibrava de alegria.

Era uma sensação única. Algo tão intenso que nenhuma droga seria capaz proporcionar um efeito que se aproximasse daquilo.

Às vezes parecia que ele se esforçava para colocar aquele sentimento à prova. Encontrava diversas maneiras de irritá-la, decepcioná-la e desorientá-la. Como se quisesse demonstrar a todo custo que não merecia aquela devoção.

Mas, não conseguia. Ela sempre continuava ali. Como agora, que o espia enquanto ele conversa no telefone.

Distraído, ele demora a perceber que está sendo observado. Quando nota que ela está lá, lhe acena com um sorriso discreto. Porém, o suficiente para deixá-la explodindo de felicidade. No fundo, ela sabe que o sentimento é recíproco.

Ele desliga o telefone e vai ao encontro dela. Os dois se abraçam. Um abraço bem apertado. Então, ele pergunta:

“O que você tá fazendo aqui?”

“Fiz café e vim saber se você quer um pouquinho.”

“Tem bolo?”

“Tem.”

“Impossível recusar um convite desses, mãe!”

Depois disso, os dois vão para cozinha onde lancham e conversam durante um tempo, até ele precisar atender o telefone novamente.