O fim do namoro

As lágrimas saíram dos olhos dele e percorreram seu rosto até se empossarem sobre o bigode de sua barba:

— Por favor, não faz isso. Eu te imploro! Vamos conversar…

Ela até viu sinceridade no rosto dele, mas já estava decidida. Não voltaria mais atrás. Desde o primeiro dia que se conheceram, ela havia alertado que não aceitaria uma traição.

O arrependimento não muda o fato. Era nisso em que ela acreditava e por isso não cedeu às súplicas desesperadas do homem:

— Sei que eu errei, mas você está exagerando. Pelo amor de Deus! Presta atenção no que você está fazendo! Você tem que me ouvir.

Mas, ela não ouviu. Se aproximou do corpo dele sem camisa. Ele estava com as mãos atadas para trás e havia uma letra x em sua pele, um palmo acima do umbigo.

Ela sentiu a respiração dele pela última vez antes de enfiar uma faca na marca desenhada com pincel atômico em seu peito.

Os olhos dele se arregalaram. Pareceu que queria dizer alguma coisa, a última coisa, mas emitiu apenas um som engasgado. Um grunhido.

Sem falar nada, ela girou a faca e sentiu o sangue quente e espesso encharcar suas mãos delicadas, matando sua sede de vingança.

Fez com o coração dele o mesmo que ele havia feito com o dela. A diferença é que só um dos sofrimentos teria um fim.

Camiseta verde

Carlos estava sentado na parada de ônibus quando um homem sentou ao seu lado e o encarou fixamente:

— Pois, não? Deseja alguma coisa? – perguntou Carlos.

— Sim. Eu quero te matar.

— O que? Como assim?!

— Você perguntou o que eu queria e eu respondi.

— Eu ouvi. Só não entendi a lógica da coisa. Por que você quer me matar?

— Hoje acordei querendo matar alguém. E decidi que seria a primeira pessoa que estivesse usando uma camiseta verde. – revelou o homem.

Carlos olhou para baixo se certificando da roupa que vestia. Com um suspiro, lamentou que aquela fosse a única limpa e passada dentro da gaveta.

— Você não pode matar alguém assim… sem motivo. – argumentou.

— Mas, eu tenho motivo. Você tá com uma camiseta verde. Esse é o meu motivo.

— Isso é um absurdo! Não se pode matar uma pessoa só por causa da roupa que ela veste. Tem que haver outro motivo!

O homem franziu a testa e Carlos notou que tinha conseguido plantar a semente da dúvida naquela mente assassina. Sabia que agora precisaria regá-la para salvar sua vida e prosseguiu:

— A vida de alguém é uma coisa muito valiosa. Acredito que a pessoa precisa fazer algo muito grave, digno de desprezo, para merecer morrer. E isso não inclui a escolha das roupas que veste, entende? Já pensou se existisse um clube de assassinos e você comentasse entre seus colegas que matou alguém só porque estava usando uma camisa verde? Acha que seria respeitado por isso ou seria motivo de chacota?

— Bem… nesse caso… acho que seria chacota… – disse o homem confuso.

— Exatamente! Entendo que você tenha aí esse seu desejo de matar, mas vai desperdiçá-lo dessa maneira? É melhor guardá-lo para uma ocasião melhor. Enquanto isso, você pode se distrair com outras coisas… Vai treinar sua pontaria atirando nos gatos da rua… ou em pombos. Eu sei que não é a mesma coisa de matar um ser humano, mas já deve dar algum alívio, né?

De repente, a expressão no rosto do assassino ficou serena, como se toda a angústia e confusão que sentia tivessem se evaporado em questão de segundos. Foi como se uma palavra mágica revelasse a saída do labirinto moral em que se encontrava.

Carlos percebeu a mudança no homem. Porém, não queria ficar ali mais tempo celebrando sua vitória. Avistou um ônibus no final da rua e decidiu que entraria nele independentemente de seu itinerário.

Mas, suas pernas não obedeceram o comando para levantá-lo do banco. E o braço, tão desobediente quanto, não fez o gesto indicando ao motorista que deveria parar ali.

Parecia que sua mente não estava mais no controle de seu corpo. Aparentemente, os pedaços que voaram de seu crânio estourado eram fundamentais para o pleno funcionamento de seu cérebro.

O ônibus passou direto, deixando para trás o assassino caminhando tranquilamente pela calçada, com a pistola ainda fumegante dentro do bolso de sua jaqueta. Voltava satisfeito para sua casa, onde brincaria com os doze gatos que criava.

Para Carlos, restou a escuridão e uma camiseta verde ensanguentada.

O turista

Eu não gosto de gente feliz demais. Alegria gratuita é algo que me irrita profundamente.

Tanto que hoje acordei disposto a fazer um favor para a humanidade e matar o primeiro desconhecido que me der um “bom dia” na rua. Pretendo tirar o sorriso da cara dele com meu punhal.

Uma idosa se aproxima do banco em que estou sentado. Ela traz um saco de papel em uma das mãos. Provavelmente foi comprar pão na padaria para alimentar seus netos.

Porém, se depender de mim, eles ficarão com fome nesta manhã. Coloco a mão no bolso do casaco e aperto o objeto metálico que está lá dentro. Sinto o sangue se agitar dentro de minhas veias, aquecendo meu corpo.

Tensiono os músculos de minhas pernas e me preparo para o golpe. Mas, para minha surpresa, a velha passa direto sem nem olhar para mim.

Não posso negar que estou frustrado. Mas, não vou me abalar. Logo aparecerá um bobo alegre dando bobeira por aí.

Pronto! Lá vem um cara acompanhado por um desses cães minúsculos de gente fresca. O animal está adornado com um laço na cabeça.

Sem dúvida, esse cara é a vítima perfeita! Alguém que se dispõe a seguir um cachorro pela rua recolhendo suas fezes, deve acordar dando bom dia para as paredes.

Ele se aproxima e sinto a excitação tomar conta do meu corpo novamente. Decido que vou deixar o cão vivo para que ele possa lamber o sangue de seu dono na calçada.

Ouço sua voz, aperto o punhal com força, mas, logo percebo que ele não falou comigo. O idiota está conversando com o bicho de estimação!

Aquelas duas figuras patéticas foram embora sem falar comigo.

Li em algum lugar que o segredo para o sucesso está justamente em saber reconhecer suas derrotas. Reconheço que hoje não é o meu dia de sorte.

Levanto e vou embora em direção ao hotel que me abriga nesta cidade insólita. Deixo pra trás o banco vazio, ao lado de uma placa que diz: “Seja bem-vindo à Brasília”.

Colegas de trabalho

8:15

Ele redige um memorando quando Paulo, seu colega de trabalho, aparece em sua mesa:

-Você foi no show, né?

– Fui.

– Eu vi as fotos no Instagram… Foi sozinho?

– Sim.

– Ah… A Bia não gosta dessa banda?

– Não sei.

Ele continua olhando para o monitor enquanto Paulo vai embora pensativo em direção à copa.

9:00

Paulo retorno com um convite:

– Eu vou fazer um churrasco lá em casa no sábado. Tá afim de ir?

– Pode ser.

– A Bia não come carne, né? Vou fazer um espetinho vegetariano pra ela.

– Não precisa.

– Faço questão…

– A Bia não vai.

– Não vai? Por que?

– A gente terminou.

– Ah… Nossa. Que chato, hein?

– Tô bem. Pode ficar tranquilo, que tô bem.

16:30

Ele se levanta para pegar algumas cópias na impressora e encontra com Paulo no caminho, que se aproxima sorridente:

– A Cristina do RH tá solteira. Vou convidá-la pro churrasco de domingo…

– Não precisa, cara. Tô bem mesmo. Não quero me relacionar com ninguém por agora…

– Por que? Acha que tem volta com a Bia?

– Não tem volta. Só quero dar um tempo sozinho.

– Certeza?

– Certeza.

– Ahn… Posso fazer uma pergunta?

– Claro. Diz aí.

– Se importa se eu chamar a Bia pra sair?

23:20

Paulo abre os olhos e vê uma enfermeira trocando os curativos dos ferimentos em seu rosto.

Chapéu Vermelho

As pessoas sempre procuram alguém para fazer aquilo que elas não sabem ou não gostam de fazer. Essa é a essência que movimenta o mercado da sociedade. Por mais competente que o indivíduo seja, sempre existirá algo que ele não faça direito.

Foi essa percepção que fez Ribeiro se especializar em uma nova profissão. Há dez anos estava desempregado e hoje é uma referência em um trabalho que basicamente se resume a fazer algo que ninguém faria de bom grado.

Mesmo assim, passando de um vagabundo a um profissional bem sucedido em algo tão peculiar, ele também precisa de ajuda para executar uma atividade relativamente simples. Porque é assim que funcionam as engrenagens da vida.

Acontece que Ribeiro não gosta de entrar em lojas de roupas. Na verdade, não gostar é pouco. Ribeiro não suporta o atendimento superficial daqueles vendedores. Então, recorre à sua mãe para lhe ajudar nesse quesito.

É por isso que agora ele está encostado em seu carro, fumando um cigarro enquanto espera sua progenitora trazer o que encomendou para executar mais um trabalho. É importante dizer que por azar, ou ironia do destino, ele necessita de um chapéu novo para cada contrato que pega. É como se fosse uma espécie de marca registrada que ele tem.

Todos os seus clientes o conhecem como o Homem do Chapéu. Em sua casa há mais de cem chapéus organizados em uma estante, cada um com uma história diferente escondida em suas abas.

A mãe chegou e ele logo foi conferir sua mais nova aquisição. Porém, não escondeu sua decepção:

— Vermelho, mãe? A senhora comprou um chapéu vermelho?

— Sim. Qual é o problema?

— O problema é que chama muita atenção e eu não gosto de chamar a atenção…

— Deixa de ser besta. Esse é o mais bonito que tinha na loja. Mas, se tiver achando ruim, vai comprar você mesmo da próxima vez.

Relutante, Ribeiro jogou o chapéu dentro do carro. Sabia que não tinha escolha, pois nem ele e nem ela voltariam na loja para trocá-lo por outro. Os dois por motivos diferentes, é claro.

Mais tarde, ele conferiu a hora combinada e foi trabalhar. Chegando ao local indicado pelo contratante, não teve dificuldade para estacionar pois a rua estava vazia. Então, Ribeiro saiu do carro com seu chapéu vermelho e foi em direção ao endereço que lhe foi passado.

Era um pouco mais das onze horas da noite quando ele tocou a campainha da casa e, conforme foi lhe informado, uma mulher bonita, alta e com os cabelos cacheados abriu a porta. Naquele instante, ele não teve dúvidas que estava no lugar certo.

A mulher tencionou lhe perguntar, de forma solícita, o que ele desejava, mas não foi preciso. Ribeiro era um profissional e dispensava cerimônias.

Sem que qualquer palavra fosse emitida, ele sacou sua glock 43 e disparou duas vezes contra a cabeça da mulher, que caiu morta sem ter ideia do que tinha acontecido. Não poderia ser diferente, afinal mesmo se quisesse, e tivesse tempo, Ribeiro não poderia ajudá-la explicando os motivos de sua morte. Pois, também não os conhecia. Só estava ali para executar o trabalho que alguém não queria fazer pessoalmente.

Voltou para o carro, repousou o chapéu sobre o banco do passageiro e foi para a casa organizar o mais novo item de sua coleção.