O fim do namoro

As lágrimas saíram dos olhos dele e percorreram seu rosto até se empossarem sobre o bigode de sua barba:

— Por favor, não faz isso. Eu te imploro! Vamos conversar…

Ela até viu sinceridade no rosto dele, mas já estava decidida. Não voltaria mais atrás. Desde o primeiro dia que se conheceram, ela havia alertado que não aceitaria uma traição.

O arrependimento não muda o fato. Era nisso em que ela acreditava e por isso não cedeu às súplicas desesperadas do homem:

— Sei que eu errei, mas você está exagerando. Pelo amor de Deus! Presta atenção no que você está fazendo! Você tem que me ouvir.

Mas, ela não ouviu. Se aproximou do corpo dele sem camisa. Ele estava com as mãos atadas para trás e havia uma letra x em sua pele, um palmo acima do umbigo.

Ela sentiu a respiração dele pela última vez antes de enfiar uma faca na marca desenhada com pincel atômico em seu peito.

Os olhos dele se arregalaram. Pareceu que queria dizer alguma coisa, a última coisa, mas emitiu apenas um som engasgado. Um grunhido.

Sem falar nada, ela girou a faca e sentiu o sangue quente e espesso encharcar suas mãos delicadas, matando sua sede de vingança.

Fez com o coração dele o mesmo que ele havia feito com o dela. A diferença é que só um dos sofrimentos teria um fim.

Colegas de trabalho

8:15

Ele redige um memorando quando Paulo, seu colega de trabalho, aparece em sua mesa:

-Você foi no show, né?

– Fui.

– Eu vi as fotos no Instagram… Foi sozinho?

– Sim.

– Ah… A Bia não gosta dessa banda?

– Não sei.

Ele continua olhando para o monitor enquanto Paulo vai embora pensativo em direção à copa.

9:00

Paulo retorno com um convite:

– Eu vou fazer um churrasco lá em casa no sábado. Tá afim de ir?

– Pode ser.

– A Bia não come carne, né? Vou fazer um espetinho vegetariano pra ela.

– Não precisa.

– Faço questão…

– A Bia não vai.

– Não vai? Por que?

– A gente terminou.

– Ah… Nossa. Que chato, hein?

– Tô bem. Pode ficar tranquilo, que tô bem.

16:30

Ele se levanta para pegar algumas cópias na impressora e encontra com Paulo no caminho, que se aproxima sorridente:

– A Cristina do RH tá solteira. Vou convidá-la pro churrasco de domingo…

– Não precisa, cara. Tô bem mesmo. Não quero me relacionar com ninguém por agora…

– Por que? Acha que tem volta com a Bia?

– Não tem volta. Só quero dar um tempo sozinho.

– Certeza?

– Certeza.

– Ahn… Posso fazer uma pergunta?

– Claro. Diz aí.

– Se importa se eu chamar a Bia pra sair?

23:20

Paulo abre os olhos e vê uma enfermeira trocando os curativos dos ferimentos em seu rosto.