P.Q.P.

A decoração no lobby do prédio era composta por três vasos grandes com plantas de plástico e dois sofás brancos. Formavam uma combinação harmônica, entretanto, ignorada pelas pessoas que tinham destino certo e passavam direto para os elevadores.

Bem ali entre aqueles móveis vazios, tão desprezadas quanto, estavam duas crianças. Um menino e uma menina.

Os dois eram irmãos e brincavam tranquilamente, sentados no chão de porcelanato, como se estivessem em um cômodo da própria casa. A menina aparentava ser a mais velha. Não muito. Uns três anos, talvez.

Enquanto tentavam montar um robô com uns blocos coloridos de plástico, o menino ouviu sua barriga roncar:

— Acho que quero uma bolacha de chocolate.

— Não se diz bolacha. O nome correto é biscoito.

— Quem disse? – perguntou o menino curioso.

— É o que tá escrito na embalagem.

— Eu ainda não sei ler.

— Pode acreditar em mim…

— Mas, o que importa é que eu tô com fome! Vamos subir pra comer bis-coi-to.

— A gente não pode subir agora.

— Por que?

— Porque a mamãe tá trabalhando e pediu pra gente esperar por ela aqui.

— Mas, eu tô com fome!

— Não vai demorar muito. Rapidinho ela termina e desce pra buscar a gente.

As crianças continuaram brincando com as peças de montar, porém com menos empolgação. A menina conseguia controlar mais suas emoções, mas era possível notar que ambas estavam entediadas.

Quando o elevador emitiu o som característico que havia chegado naquele andar, os irmãos direcionaram seus olhares curiosos, quase suplicantes, para as portas metálicas que se abriram.

Eles viram apenas um homem saindo de lá, ajeitando a camisa dentro da calça. Estava com os cabelos úmidos e aparentava estar atrasado para algum compromisso, pois passou apressado pelo hall, sem olhar para os lados. Em segundos, já estava na calçada da rua procurando o carro que havia estacionado ali perto.

— Aquele não era o moço que subiu para trabalhar com a mamãe? – perguntou o menino.

— Acho que sim.

— Tomara que seja ele! Não aguento mais esperar para comer uma bo… digo… um biscoito de chocolate. – revelou preocupado em usar a palavra que acabara de aprender.

— Lembre-se que a gente ainda vai jantar e a mamãe não gosta que você coma besteira antes da janta.

Antes que iniciassem uma possível discussão sobre a quantidade de biscoitos que poderiam comer sem perder o apetite, viram a mãe saindo de outro elevador e correram para abraçá-la.

— A senhora já tomou banho, mãe? – perguntou a menina observando os cabelos molhados da mulher.

— Já. E daqui a pouco vocês vão tomar também.

— Ah não! Banho não. Ainda tá cedo… nem começou a novela. – resmungou o menino.

— Deixa de ser porquinho. Agora me diga, você se comportou direitinho?

— Ele só deu trabalho na hora que queria comer bolacha antes de jantar… – informou a menina.

— Mentira dela, mãe!

— Eu tô mentindo?

— Tá! Porque não é bolacha que se fala. É biscoito!

Os três sorriram e entraram no elevador abraçados. Chegando em casa, as crianças foram tomar banho.

Enquanto estava se vestindo, a menina ouviu a mãe conversando com alguém no telefone. Aparentemente ela teria mais um trabalho naquela noite. Então, a menina suspirou, foi ao encontro do irmão que estava na cozinha e também comeu alguns biscoitos de chocolate prevendo que a janta atrasaria.

Amor à primeira vista

A presença dele surtia certo efeito hipnótico sobre ela. Desde sempre. Suas palavras soavam como cânticos entoados por um coral de querubins.

Ela não disfarçava sua admiração. Quando falava dele, seus olhos brilhavam e quando ele se aproximava o coração vibrava de alegria.

Era uma sensação única. Algo tão intenso que nenhuma droga seria capaz proporcionar um efeito que se aproximasse daquilo.

Às vezes parecia que ele se esforçava para colocar aquele sentimento à prova. Encontrava diversas maneiras de irritá-la, decepcioná-la e desorientá-la. Como se quisesse demonstrar a todo custo que não merecia aquela devoção.

Mas, não conseguia. Ela sempre continuava ali. Como agora, que o espia enquanto ele conversa no telefone.

Distraído, ele demora a perceber que está sendo observado. Quando nota que ela está lá, lhe acena com um sorriso discreto. Porém, o suficiente para deixá-la explodindo de felicidade. No fundo, ela sabe que o sentimento é recíproco.

Ele desliga o telefone e vai ao encontro dela. Os dois se abraçam. Um abraço bem apertado. Então, ele pergunta:

“O que você tá fazendo aqui?”

“Fiz café e vim saber se você quer um pouquinho.”

“Tem bolo?”

“Tem.”

“Impossível recusar um convite desses, mãe!”

Depois disso, os dois vão para cozinha onde lancham e conversam durante um tempo, até ele precisar atender o telefone novamente.