Nunca se sabe

Você passa quatro anos estudando, achando que é a pior fase da sua vida, e depois descobre que dentro daquele canudo não tem um diploma, mas um título de desempregado. Acorda na manhã seguinte à formatura, percebe que não tem mais motivo para sair de casa e compreende o sentido da frase de que tudo pode piorar.

Eu tinha acabado de me formar na faculdade. Distribuí mais de 100 currículos pelas escolas da cidade esperando que pelo menos uma estivesse precisando de um professor de Artes. Já estava no meio do mês de março e o desespero tomava conta de mim.

Naquele dia, eu fiquei sentado ao lado do telefone como um cão de guarda esperando por uma ligação. Na época, a gente ainda usava telefone fixo e eu não podia deixar que alguém ocupasse a linha. Queria evitar todos os riscos.

Porém, o destino é um sujeito ardiloso e vive aprontando pra cima das pessoas, como se fossem marionetes de uma tragédia grega orquestrada por ele. Como todo ser humano, também tenho minhas necessidades biológicas e precisei ir ao banheiro, dando início àquele roteiro inescrupuloso que marcaria a minha vida.

Quando voltei, meu pai estava com o telefone nas mãos. Fiquei irritado e falei pra ele colocar o aparelho no gancho. Talvez eu tenha gritado. Não consigo me lembrar direito, afinal foi algo tão impulsivo que nem notei. Na lembrança construída em minha memória, eu acho que gritei.

O fato é que ele desligou na mesma hora e pediu desculpas. Assustado e com os olhos cheios de culpa. Todo mundo lá em casa sabia que eu estava esperando uma ligação, mas sabe como são os pais, né? Eles sempre se esquecem das coisas que a gente fala.

Antigamente eu pensava que era por implicância, mas hoje em dia, que também sou pai, entendo que nossa memória não é mais a mesma quando os dramas da juventude são completamente insignificantes diante do acúmulo de boletos vencidos.

Depois disso, meu pai foi pra cozinha e ficou lá com a minha mãe, resmungando alguma coisa sobre ela ter me mimado demais. Parece que a ligação era para pedir um paracetamol, pois estava com dor nas costas e não queria ir a pé na farmácia. Ou era minha mãe que sentia dores nas costas. Não sei direito, pois não prestei muita atenção.

Só vi quando ele passou por mim bufando, pegando as chaves do portão para ir até a farmácia que ficava perto de casa. Eu continuei lá no sofá, plantado ao lado do telefone, à espera do acontecimento que mudaria meu destino.

Não precisei esperar muito mais para ele chegar. O local foi na esquina da minha casa, com um carro desgovernado subindo na calçada e atingindo meu pai, que caminhava tranquilamente com a caixinha de remédio na mão.

Morte imediata. Ele foi arremessado a mais de 20 metros de distância. Sentado no sofá, ainda ouvi o som dos pneus fritando no asfalto seguido pelo estrondo da lataria se chocando ao corpo dele. Foi tão alto que, na hora, pensei ter sido um acidente entre dois carros.

O telefone tocou. Atendi e era uma escola interessada em meu currículo. A mesma em que trabalho até hoje. Enquanto eu agendava a entrevista, vi minha mãe passando apressada para ver o que tinha acontecido. Movida pela curiosidade típica das donas de casa.

Desliguei o telefone eufórico para dar as boas novas aos meus pais. Porém, só minha mãe entrou pela porta da sala novamente. Com os olhos cheios de lágrimas. Em choque. Não conseguiu falar nada. Logo depois alguns vizinhos chegaram para ampará-la e foi então que entendi tudo.

Como se tivessem mudado uma chave da voltagem do meu coração, a alegria que eu sentia desapareceu no ar, como se saísse de mim pelas lágrimas que escorriam em meu rosto.

Até hoje não consigo parar de pensar o que teria acontecido se eu tivesse deixado meu pai pedir o remédio por telefone. Ou que poderia ter sido mais amável em minha última conversa com ele…Tanta coisa poderia ter sido diferente.

Mas, é como dizem, nunca se sabe quando quando será a última vez.

P.Q.P.

A decoração no lobby do prédio era composta por três vasos grandes com plantas de plástico e dois sofás brancos. Formavam uma combinação harmônica, entretanto, ignorada pelas pessoas que tinham destino certo e passavam direto para os elevadores.

Bem ali entre aqueles móveis vazios, tão desprezadas quanto, estavam duas crianças. Um menino e uma menina.

Os dois eram irmãos e brincavam tranquilamente, sentados no chão de porcelanato, como se estivessem em um cômodo da própria casa. A menina aparentava ser a mais velha. Não muito. Uns três anos, talvez.

Enquanto tentavam montar um robô com uns blocos coloridos de plástico, o menino ouviu sua barriga roncar:

— Acho que quero uma bolacha de chocolate.

— Não se diz bolacha. O nome correto é biscoito.

— Quem disse? – perguntou o menino curioso.

— É o que tá escrito na embalagem.

— Eu ainda não sei ler.

— Pode acreditar em mim…

— Mas, o que importa é que eu tô com fome! Vamos subir pra comer bis-coi-to.

— A gente não pode subir agora.

— Por que?

— Porque a mamãe tá trabalhando e pediu pra gente esperar por ela aqui.

— Mas, eu tô com fome!

— Não vai demorar muito. Rapidinho ela termina e desce pra buscar a gente.

As crianças continuaram brincando com as peças de montar, porém com menos empolgação. A menina conseguia controlar mais suas emoções, mas era possível notar que ambas estavam entediadas.

Quando o elevador emitiu o som característico que havia chegado naquele andar, os irmãos direcionaram seus olhares curiosos, quase suplicantes, para as portas metálicas que se abriram.

Eles viram apenas um homem saindo de lá, ajeitando a camisa dentro da calça. Estava com os cabelos úmidos e aparentava estar atrasado para algum compromisso, pois passou apressado pelo hall, sem olhar para os lados. Em segundos, já estava na calçada da rua procurando o carro que havia estacionado ali perto.

— Aquele não era o moço que subiu para trabalhar com a mamãe? – perguntou o menino.

— Acho que sim.

— Tomara que seja ele! Não aguento mais esperar para comer uma bo… digo… um biscoito de chocolate. – revelou preocupado em usar a palavra que acabara de aprender.

— Lembre-se que a gente ainda vai jantar e a mamãe não gosta que você coma besteira antes da janta.

Antes que iniciassem uma possível discussão sobre a quantidade de biscoitos que poderiam comer sem perder o apetite, viram a mãe saindo de outro elevador e correram para abraçá-la.

— A senhora já tomou banho, mãe? – perguntou a menina observando os cabelos molhados da mulher.

— Já. E daqui a pouco vocês vão tomar também.

— Ah não! Banho não. Ainda tá cedo… nem começou a novela. – resmungou o menino.

— Deixa de ser porquinho. Agora me diga, você se comportou direitinho?

— Ele só deu trabalho na hora que queria comer bolacha antes de jantar… – informou a menina.

— Mentira dela, mãe!

— Eu tô mentindo?

— Tá! Porque não é bolacha que se fala. É biscoito!

Os três sorriram e entraram no elevador abraçados. Chegando em casa, as crianças foram tomar banho.

Enquanto estava se vestindo, a menina ouviu a mãe conversando com alguém no telefone. Aparentemente ela teria mais um trabalho naquela noite. Então, a menina suspirou, foi ao encontro do irmão que estava na cozinha e também comeu alguns biscoitos de chocolate prevendo que a janta atrasaria.

A carta

Francisco apagou o fogo que estava sob a panela com água. Despejou o líquido fumegante dentro de um coador encardido e o cheiro do café se espalhou pela casa.

Encheu sua caneca com a bebida e ficou encostado na bancada da cozinha observando seu neto, que estava mexendo no celular.

O teto podia desabar que o garoto não largava aquela coisa! Mas, Francisco tinha desistido de brigar por causa daquele aparelho. Afinal, até ele tinha seus vícios e suas dependências.

Pensando nisso, levou a mão ao bolso da camisa social e pegou o maço de cigarros que estava ali. Era a hora de sua tragada matinal.

Em frente de casa, enquanto soltava uma fumaça azulada no ar como se fosse uma chaminé humana, viu o carteiro aproximando do seu portão.

O homem de camiseta amarela enfiou alguns papéis na caixinha e Francisco arremessou seu cigarro, ainda pela metade, na calçada e foi conferir as correspondências.

Pegou um envelope que se destacava dos outros e o abriu com cuidado. Retirou duas páginas lá de dentro e o perfume que emanava delas serviu para testar a qualidade do marca-passo instalado no peito do velho.

Seduzido pelas palavras escritas em letras cursivas, não viu quando seu neto passou correndo por ele com uma bola na mão.

Amor à primeira vista

A presença dele surtia certo efeito hipnótico sobre ela. Desde sempre. Suas palavras soavam como cânticos entoados por um coral de querubins.

Ela não disfarçava sua admiração. Quando falava dele, seus olhos brilhavam e quando ele se aproximava o coração vibrava de alegria.

Era uma sensação única. Algo tão intenso que nenhuma droga seria capaz proporcionar um efeito que se aproximasse daquilo.

Às vezes parecia que ele se esforçava para colocar aquele sentimento à prova. Encontrava diversas maneiras de irritá-la, decepcioná-la e desorientá-la. Como se quisesse demonstrar a todo custo que não merecia aquela devoção.

Mas, não conseguia. Ela sempre continuava ali. Como agora, que o espia enquanto ele conversa no telefone.

Distraído, ele demora a perceber que está sendo observado. Quando nota que ela está lá, lhe acena com um sorriso discreto. Porém, o suficiente para deixá-la explodindo de felicidade. No fundo, ela sabe que o sentimento é recíproco.

Ele desliga o telefone e vai ao encontro dela. Os dois se abraçam. Um abraço bem apertado. Então, ele pergunta:

“O que você tá fazendo aqui?”

“Fiz café e vim saber se você quer um pouquinho.”

“Tem bolo?”

“Tem.”

“Impossível recusar um convite desses, mãe!”

Depois disso, os dois vão para cozinha onde lancham e conversam durante um tempo, até ele precisar atender o telefone novamente.