TEXTO INTERATIVO (JOGO DE TRUCO)

Ela estava sentada de frente para o marido e olhava fixamente nos olhos dele. Eles estavam concentrados e a tensão que exalavam podia ser sentida por todos que estavam no ambiente.

Com a mesma ansiedade de alguém que chega em um momento esperado por muito tempo, ele se ajeitou na cadeira, abriu um sorriso e berrou:

– Truco!

Ela permaneceu imóvel, com o olhar do mesmo jeito de antes.

Um homem que estava sentado à direita dele, levantou-se imponente e revidou:

– É seis, ladrão!

Imediatamente ele olhou para ela buscando alguma reação em sua expressão. Mas, ela não moveu nem um músculo de sua face. Parecia uma estátua.

Ele estava aflito. Quase desesperado. Sentia o amargo da dúvida descendo por sua garganta como se fosse um comprimido que engoliu a seco. Não era fácil aceitar a derrota.

Ele suspeitava que o homem estivesse blefando, mas suas cartas não eram tão boas para confrontá-lo sozinho. Ele precisaria da ajuda dela, mas ela não dava nenhum sinal que pudesse ajudá-lo na decisão que precisava tomar.

Não tinha mais tempo para pensar, então seguiu seus instintos:

– Pode descer nessa porra! – ele grita.

O homem jogou na mesa o sete de copas. Ela soltou um valete de espadas. O outro homem colocou sua carta com o verso virado para cima.

Tudo foi muito rápido e ele sentiu o mundo desmoronar sob seus pés. Encarou por alguns segundos o seu dois de ouros como se tivesse o poder de transformá-lo em outra carta com o olhar. Mas, não tinha.

Impotente, ele mostrou sua carta e abaixou a cabeça. A dupla adversária vibrou triunfante e comemorou gritando como se fosse formada por dois loucos.

Ele olhou para a esposa e perguntou estarrecido:

– Por que você não disse que tava sem carta boa?

– Sei lá. Acho que eu tava distraída. – ela respondeu

– Posso saber onde você tava com a cabeça?

– Tava pensando em outra coisa.

– E que coisa seria mais importante do que passar pela humilhação de aceitar o seis deles só com um valete na mão?

Ela cruzou os braços sobre a mesa de madeira e respondeu de forma curta e direta:

– Divórcio.

– O que? Como assim? – questionou confuso.

– Eu quero o divórcio. – ela esclareceu.

Os outros homens encerraram a comemoração e ficaram com os olhos arregalados. A surpresa foi tão grande que ninguém ali sabia ao certo como reagir.

Ele piscou os olhos uma centena de vezes e perguntou intrigado:

– Você tá doida? Decidiu se separar de uma hora para a outra?

– Não foi de uma hora para outra. Já tem um tempo que tô de saco cheio de você e agora não aguento mais olhar para sua cara.

A dupla vitoriosa se entreolhou com certa empolgação, como se estivesse diante de uma cena de novela. Começou um burburinho ao redor do casal e o marido começou a suar.

Ele estava constrangido e, assim como no truco, um ataque espalhafatoso poderia ser uma boa forma de distração.

Foi pensando desse jeito que ele arriscou uma estratégia para assumir o controle da situação:

– Enjoou da minha cara depois de seis anos de casamento?

– Isso mesmo.

– Fala a verdade. Você tá dando pra outro, né?

– Como você é imaturo. Não vou nem perder meu tempo respondendo isso.

– Aposto que ele só te come de quatro e é por isso que você não enjoou da cara dele também.

Ele olhou para os lados buscando apoio da plateia, mas o resultado não foi o esperado e nenhum dos dois homens retribuiu seu olhar. Um silêncio aterrador dominou o ambiente.

As palavras proferidas são como as cartas lançadas em uma mesa de jogo. Uma escolha errada compromete todo o resto e ele percebeu que havia se equivocado pela segunda vez naquele dia. Mas já era tarde para voltar atrás.

Ela não demonstrou reação. Apenas se levantou da mesa, caminhou tranquilamente e parou ao lado do futuro ex marido.

O público alcançou o clímax. Os dois homens aguardavam ansiosamente pelo desfecho daquela trama, mas nem o mais criativo deles poderia imaginar a reviravolta que viria a seguir.

A esposa botou a mão delicadamente na cabeça do companheiro e segurou seus cabelos como se fosse fazer um cafuné. Porém, aplicou uma força maior do que a esperada e impulsionou o tronco dele para frente, fazendo com que sua testa atingisse a mesa onde as cartas do baralho estavam espalhadas.

Repetiu o mesmo movimento dezenas de vezes. Cada golpe mais forte que o outro. Os feijões, que serviam para marcar a pontuação do jogo, voaram pelo ar junto dos dentes que escaparam da boca do homem ensanguentado.

Os outros dois fugiram com medo da mulher que parecia ter sido possuída por um espírito maligno.

A agressão só terminou quando ela foi dominada pelo cansaço e seu braço ficou fraco. Ele ainda tentou falar alguma coisa, mas não conseguiu porque sua língua estava toda machucada. 

Antes de ir embora, ela retirou a aliança que estava no dedo anelar de sua mão esquerda e a deixou sobre uma das cartas manchadas de sangue.

Sorriu ao ver que era o quatro de paus.

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O fim do namoro

As lágrimas saíram dos olhos dele e percorreram seu rosto até se empossarem sobre o bigode de sua barba:

— Por favor, não faz isso. Eu te imploro! Vamos conversar…

Ela até viu sinceridade no rosto dele, mas já estava decidida. Não voltaria mais atrás. Desde o primeiro dia que se conheceram, ela havia alertado que não aceitaria uma traição.

O arrependimento não muda o fato. Era nisso em que ela acreditava e por isso não cedeu às súplicas desesperadas do homem:

— Sei que eu errei, mas você está exagerando. Pelo amor de Deus! Presta atenção no que você está fazendo! Você tem que me ouvir.

Mas, ela não ouviu. Se aproximou do corpo dele sem camisa. Ele estava com as mãos atadas para trás e havia uma letra x em sua pele, um palmo acima do umbigo.

Ela sentiu a respiração dele pela última vez antes de enfiar uma faca na marca desenhada com pincel atômico em seu peito.

Os olhos dele se arregalaram. Pareceu que queria dizer alguma coisa, a última coisa, mas emitiu apenas um som engasgado. Um grunhido.

Sem falar nada, ela girou a faca e sentiu o sangue quente e espesso encharcar suas mãos delicadas, matando sua sede de vingança.

Fez com o coração dele o mesmo que ele havia feito com o dela. A diferença é que só um dos sofrimentos teria um fim.

Camiseta verde

Carlos estava sentado na parada de ônibus quando um homem sentou ao seu lado e o encarou fixamente:

— Pois, não? Deseja alguma coisa? – perguntou Carlos.

— Sim. Eu quero te matar.

— O que? Como assim?!

— Você perguntou o que eu queria e eu respondi.

— Eu ouvi. Só não entendi a lógica da coisa. Por que você quer me matar?

— Hoje acordei querendo matar alguém. E decidi que seria a primeira pessoa que estivesse usando uma camiseta verde. – revelou o homem.

Carlos olhou para baixo se certificando da roupa que vestia. Com um suspiro, lamentou que aquela fosse a única limpa e passada dentro da gaveta.

— Você não pode matar alguém assim… sem motivo. – argumentou.

— Mas, eu tenho motivo. Você tá com uma camiseta verde. Esse é o meu motivo.

— Isso é um absurdo! Não se pode matar uma pessoa só por causa da roupa que ela veste. Tem que haver outro motivo!

O homem franziu a testa e Carlos notou que tinha conseguido plantar a semente da dúvida naquela mente assassina. Sabia que agora precisaria regá-la para salvar sua vida e prosseguiu:

— A vida de alguém é uma coisa muito valiosa. Acredito que a pessoa precisa fazer algo muito grave, digno de desprezo, para merecer morrer. E isso não inclui a escolha das roupas que veste, entende? Já pensou se existisse um clube de assassinos e você comentasse entre seus colegas que matou alguém só porque estava usando uma camisa verde? Acha que seria respeitado por isso ou seria motivo de chacota?

— Bem… nesse caso… acho que seria chacota… – disse o homem confuso.

— Exatamente! Entendo que você tenha aí esse seu desejo de matar, mas vai desperdiçá-lo dessa maneira? É melhor guardá-lo para uma ocasião melhor. Enquanto isso, você pode se distrair com outras coisas… Vai treinar sua pontaria atirando nos gatos da rua… ou em pombos. Eu sei que não é a mesma coisa de matar um ser humano, mas já deve dar algum alívio, né?

De repente, a expressão no rosto do assassino ficou serena, como se toda a angústia e confusão que sentia tivessem se evaporado em questão de segundos. Foi como se uma palavra mágica revelasse a saída do labirinto moral em que se encontrava.

Carlos percebeu a mudança no homem. Porém, não queria ficar ali mais tempo celebrando sua vitória. Avistou um ônibus no final da rua e decidiu que entraria nele independentemente de seu itinerário.

Mas, suas pernas não obedeceram o comando para levantá-lo do banco. E o braço, tão desobediente quanto, não fez o gesto indicando ao motorista que deveria parar ali.

Parecia que sua mente não estava mais no controle de seu corpo. Aparentemente, os pedaços que voaram de seu crânio estourado eram fundamentais para o pleno funcionamento de seu cérebro.

O ônibus passou direto, deixando para trás o assassino caminhando tranquilamente pela calçada, com a pistola ainda fumegante dentro do bolso de sua jaqueta. Voltava satisfeito para sua casa, onde brincaria com os doze gatos que criava.

Para Carlos, restou a escuridão e uma camiseta verde ensanguentada.

O turista

Eu não gosto de gente feliz demais. Alegria gratuita é algo que me irrita profundamente.

Tanto que hoje acordei disposto a fazer um favor para a humanidade e matar o primeiro desconhecido que me der um “bom dia” na rua. Pretendo tirar o sorriso da cara dele com meu punhal.

Uma idosa se aproxima do banco em que estou sentado. Ela traz um saco de papel em uma das mãos. Provavelmente foi comprar pão na padaria para alimentar seus netos.

Porém, se depender de mim, eles ficarão com fome nesta manhã. Coloco a mão no bolso do casaco e aperto o objeto metálico que está lá dentro. Sinto o sangue se agitar dentro de minhas veias, aquecendo meu corpo.

Tensiono os músculos de minhas pernas e me preparo para o golpe. Mas, para minha surpresa, a velha passa direto sem nem olhar para mim.

Não posso negar que estou frustrado. Mas, não vou me abalar. Logo aparecerá um bobo alegre dando bobeira por aí.

Pronto! Lá vem um cara acompanhado por um desses cães minúsculos de gente fresca. O animal está adornado com um laço na cabeça.

Sem dúvida, esse cara é a vítima perfeita! Alguém que se dispõe a seguir um cachorro pela rua recolhendo suas fezes, deve acordar dando bom dia para as paredes.

Ele se aproxima e sinto a excitação tomar conta do meu corpo novamente. Decido que vou deixar o cão vivo para que ele possa lamber o sangue de seu dono na calçada.

Ouço sua voz, aperto o punhal com força, mas, logo percebo que ele não falou comigo. O idiota está conversando com o bicho de estimação!

Aquelas duas figuras patéticas foram embora sem falar comigo.

Li em algum lugar que o segredo para o sucesso está justamente em saber reconhecer suas derrotas. Reconheço que hoje não é o meu dia de sorte.

Levanto e vou embora em direção ao hotel que me abriga nesta cidade insólita. Deixo pra trás o banco vazio, ao lado de uma placa que diz: “Seja bem-vindo à Brasília”.

Chapéu Vermelho

As pessoas sempre procuram alguém para fazer aquilo que elas não sabem ou não gostam de fazer. Essa é a essência que movimenta o mercado da sociedade. Por mais competente que o indivíduo seja, sempre existirá algo que ele não faça direito.

Foi essa percepção que fez Ribeiro se especializar em uma nova profissão. Há dez anos estava desempregado e hoje é uma referência em um trabalho que basicamente se resume a fazer algo que ninguém faria de bom grado.

Mesmo assim, passando de um vagabundo a um profissional bem sucedido em algo tão peculiar, ele também precisa de ajuda para executar uma atividade relativamente simples. Porque é assim que funcionam as engrenagens da vida.

Acontece que Ribeiro não gosta de entrar em lojas de roupas. Na verdade, não gostar é pouco. Ribeiro não suporta o atendimento superficial daqueles vendedores. Então, recorre à sua mãe para lhe ajudar nesse quesito.

É por isso que agora ele está encostado em seu carro, fumando um cigarro enquanto espera sua progenitora trazer o que encomendou para executar mais um trabalho. É importante dizer que por azar, ou ironia do destino, ele necessita de um chapéu novo para cada contrato que pega. É como se fosse uma espécie de marca registrada que ele tem.

Todos os seus clientes o conhecem como o Homem do Chapéu. Em sua casa há mais de cem chapéus organizados em uma estante, cada um com uma história diferente escondida em suas abas.

A mãe chegou e ele logo foi conferir sua mais nova aquisição. Porém, não escondeu sua decepção:

— Vermelho, mãe? A senhora comprou um chapéu vermelho?

— Sim. Qual é o problema?

— O problema é que chama muita atenção e eu não gosto de chamar a atenção…

— Deixa de ser besta. Esse é o mais bonito que tinha na loja. Mas, se tiver achando ruim, vai comprar você mesmo da próxima vez.

Relutante, Ribeiro jogou o chapéu dentro do carro. Sabia que não tinha escolha, pois nem ele e nem ela voltariam na loja para trocá-lo por outro. Os dois por motivos diferentes, é claro.

Mais tarde, ele conferiu a hora combinada e foi trabalhar. Chegando ao local indicado pelo contratante, não teve dificuldade para estacionar pois a rua estava vazia. Então, Ribeiro saiu do carro com seu chapéu vermelho e foi em direção ao endereço que lhe foi passado.

Era um pouco mais das onze horas da noite quando ele tocou a campainha da casa e, conforme foi lhe informado, uma mulher bonita, alta e com os cabelos cacheados abriu a porta. Naquele instante, ele não teve dúvidas que estava no lugar certo.

A mulher tencionou lhe perguntar, de forma solícita, o que ele desejava, mas não foi preciso. Ribeiro era um profissional e dispensava cerimônias.

Sem que qualquer palavra fosse emitida, ele sacou sua glock 43 e disparou duas vezes contra a cabeça da mulher, que caiu morta sem ter ideia do que tinha acontecido. Não poderia ser diferente, afinal mesmo se quisesse, e tivesse tempo, Ribeiro não poderia ajudá-la explicando os motivos de sua morte. Pois, também não os conhecia. Só estava ali para executar o trabalho que alguém não queria fazer pessoalmente.

Voltou para o carro, repousou o chapéu sobre o banco do passageiro e foi para a casa organizar o mais novo item de sua coleção.