Andar de cima

Ela revirou os olhos, agarrou o travesseiro e colocou sobre seu rosto, como se quisesse se sufocar. Virou para um lado para o outro, mas, não adiantou. O sono foi embora e não deixou sinais de que voltaria tão cedo.

Olhou para o relógio do seu celular. Eram três horas e alguns minutos da madrugada. Sentiu ódio e bufou ao lembrar que teria que levantar às seis horas da manhã.

Fechou os olhos como se pudesse obrigar seu corpo a dormir. Em vão. Se sono fosse um substantivo concreto, sem dúvida ela o caçaria, cravaria suas unhas no corpo dele e o arrastaria a força até aquele quarto.

Estava desesperada. Mentalmente, xingou o vizinho de cima com todos os palavrões que conhecia e mais alguns que inventou na hora.

Não havia cabimento alguém arrastar móveis em casa durante a madrugada. Era inadmissível. Algo de quem não tinha a mínima noção de boa convivência. Total falta de consideração com o próximo.

Por diversas vezes, ela sentiu vontade de pegar o elevador e bater na porta dele para pedir silêncio. Porém, ao contrário do vizinho, zelava pelas boas condutas de educação.

Sem conseguir dormir novamente, ouviu o despertador tocar. Levantou da cama, se arrumou e saiu de casa furiosa.

Chegando ao térreo, ao lado do porteiro, viu um objeto sobre o balcão de granito que iluminou suas ideias e lhe encheu de esperança.O livro de ocorrências.

Não pensou duas vezes e foi até ele. Escreveu em uma página inteira sua reclamação contra o morador do apartamento 305. Detalhou o quanto ele era inconveniente ao arrastar os móveis de sua casa durante a madrugada, todos os dias no mesmo horário.

Lembrou que haveria uma reunião do condomínio naquela noite e esperava que ainda estivesse em tempo do assunto ser posto em pauta.

Passou o dia inteiro pensando nisso. Salivava sentindo o gosto doce de vingança brotar em sua boca. Desejava que aquele cretino levasse uma multa generosa e sentisse o preço de seu descaso pesando no próprio bolso.

Mais tarde na reunião, checou a pauta e dentre os temas listados, verificou que tinha desde a reforma da quadra poliesportiva  aos trotes que o condomínio estava recebendo. Mas, nada sobre barulhos que moradores faziam de madrugada. Ficou irritada.

Estava inquieta na cadeira quando o síndico começou a falar. Decidiu que assim que tivesse uma oportunidade, ela iria pedir a palavra e fazer a reclamação ali mesmo. Ao vivo. Na frente de todo mundo.

Porém, o síndico olhou em sua direção e pareceu falar diretamente com ela. Com certo ar de reprovação. Ficou confusa e deu uma trégua em seus pensamentos maléficos para prestar atenção no que era dito por aquele homem pedante:

— É preciso ter consciência. Afinal, estamos lidando com pessoas exercendo o seu trabalho. – Ela entendeu que ele ainda estava falando sobre os trotes.

Já ia voltar para seu plano de expor o vizinho, quando algo naquela fala lhe trouxe a sensação de ter mergulhado numa banheira cheia de cubos de gelo:

— E o mais absurdo nisso tudo, é que não são apenas crianças que fazem esse tipo de coisa. – revelou o síndico. – Tem moradores adultos que estão usando o Livro de Ocorrências pra fazer piadas com esses trabalhadores. Inclusive, alguém não respeitou nem a memória da Dona Neusa, que morava sozinha e, como todos nós sabemos, morreu na semana passada. Não vou citar nomes, mas esse indivíduo disse que ouvia o som dos móveis se arrastando dentro do apartamento dela às 3 horas da madrugada. Eu não sei nem se posso chamar isso de brincadeira, de tão desrespeitoso que foi. Como pode alguém ter coragem de assustar nossos funcionários com essas baboseiras dos filmes de terror? É revoltante! Peço para que todos tenham bom senso e parem com esse tipo de coisa. Bom, agora vamos para o próximo item da pauta…

Ela estava em choque. Não ouviu mais nada do que foi dito depois daquilo. Lembrava de escutar algo sobre o acidente que matara a simpática senhora que lhe cumprimentava no elevador, mas, estava tão distraída nos últimos dias que não se atentara para um detalhe importante.

Se levantou e foi até o painel do interfone, onde tinha o nome e o número do apartamento de cada morador do prédio. O dedo indicador ajudou a não se perder na lista. Chegou no apartamento 305 e sentiu o coração bater na garganta quando leu o que estava escrito ao lado daquele número.

“Marineusa Cristina”. Era a sua vizinha do andar de cima.

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