Palavras cruzadas

Fonseca acordava com a mesma sensação de um presidiário riscando a parede da cela para controlar a pena imposta. Porém, no seu caso, não era necessariamente liberdade o que desejava. O sentimento era apenas o de subtrair mais um dia daqueles que ainda restavam em sua vida.

Seus dias não eram muito agitados. Acordava bem cedo, pois se ficasse muito tempo deitado na cama sentiria dores no corpo inteiro. Então, realizava sua higiene pessoal, fazia o café e colocava ração para Lancelot, um gato amarelo que lhe fazia companhia. Em seu apartamento, moravam apenas ele e o animal de estimação.

Depois disso, ia até a varanda, acendia um cigarro e ficava ali observando a agitação das pessoas na rua até dar a hora de sair para almoçar. Voltava do almoço, assistia televisão e ficava ali no sofá o resto do dia. Levantava apenas para fumar na sacada. Nas primeiras horas da noite, o sono lhe abraçava e ele ia para o seu quarto dormir.

Fonseca ainda não sabia, mas aquele seria o último dia daquela rotina maçante.

Ele tinha apenas dois amigos, Nelson e Álvaro. Durante muito tempo, Fonseca foi um homem de muitas amizades, porém, aos 72 anos, aqueles foram os únicos que restaram vivos.

Por volta das 11 horas da manhã, ele desceu pelo elevador do prédio e partiu em direção  ao restaurante onde o trio se encontrava todos os dias para o almoço.

A pé e sem pressa, a caminhada durou um pouco mais de dez minutos. Antes de entrar no estabelecimento, sentiu algo diferente. Um frio na barriga. Outra pessoa teria chamado aquela sensação de pressentimento, porém, Fonseca já não acreditava mais nessas coisas.

Então, sem se importar com aquilo, abriu a porta do restaurante e foi ao encontro de seu destino.

No interior do restaurante, logo identificou os amigos Nelson e Álvaro, que estavam sentados na mesma mesa que sentavam todos os dias:

— Finalmente! Pensei que não viesse mais.

— Para de encher o saco dele, Nelson! É melhor chegar atrasado do que cair na calçada tentando andar rápido. Pode até quebrar a bacia ou coisa parecida.

— Isso pode acontecer mesmo. Semana passada uma vizinha minha lá do prédio tropeçou na rua e agora só anda de cadeira de rodas. – ponderou Nelson.

— Vamos parar de falar merda? Sobre o que vocês estavam conversando antes? – interrompeu Fonseca.

— Eu tava falando pro Nelson que o título de 89 é do Sport. Só que ele é um velho teimoso e insiste em dizer que o Flamengo foi campeão daquele ano!

— De novo esse assunto?

— É claro! E vamos conversar sobre isso quantas vezes mais for preciso pro Álvaro entender que não se pode mudar as regras no meio do campeonato!

Fonseca não estava com paciência para acompanhar aquela discussão novamente e foi para o balcão do restaurante. Uma decisão inusitada que mudou completamente o seu futuro.

Mesmo sem ter conhecimento da consequência de seus atos, os dados foram lançados no tabuleiro da vida, como se ele fosse uma pecinha de um grande jogo de RPG.

Fonseca abriu o jornal sobre o balcão e pediu uma caneta para fazer as palavras cruzadas.

Ficou ali durante alguns minutos concentrado no passatempo que praticava desde a infância, com os jornais furtados das casas de onde a mãe trabalhava como doméstica.

Depois de tantos anos, havia se tornado um tipo de especialista naquilo. Preenchia os quadradinhos vazios com certa facilidade, porém, como já foi dito, aquele não era um dia comum.

Uma palavra em particular roubava a sua paz. O suor brotava em sua testa e seu coração palpitava por causa de um sentimento que se aproximava do ódio:

— Mas, que caralho é esse de “famosa cerâmica produzida por índios da região amazônica”?!

Quando percebeu que as palavras tinham escapado de sua boca ao invés de ficarem guardadas em sua mente raivosa, sentiu as bochechas ficarem vermelhas de vergonha por causa dos olhares curiosos que os demais fregueses lançaram em sua direção.

Naquele horário, o lugar era frequentado majoritariamente por pessoas com mais de 60 anos. Entretanto, um palavrão em um local público sempre era motivo de estranheza. Isso não mudava com a idade.

Uma mão tocou em seu ombro e Fonseca se preparou para ouvir um sermão de algum fanático religioso querendo cagar regra. Engatilhou vários xingamentos na ponta da língua para revidar.

Mas, quando se virou, viu uma mulher de cabelos cacheados, tingidos de vermelho, usando óculos de grau com armação tartaruga. Ela sorriu e perguntou:

— Quantas letras?

— Nove. – respondeu confuso.

— Marajoara. – informou a mulher.

Naquele instante Fonseca soube que havia encontrado bem mais do que a última palavra para concluir seu jogo.

Teve certeza de que era ele quem estava completo.

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