Camiseta verde

Carlos estava sentado na parada de ônibus quando um homem sentou ao seu lado e o encarou fixamente:

— Pois, não? Deseja alguma coisa? – perguntou Carlos.

— Sim. Eu quero te matar.

— O que? Como assim?!

— Você perguntou o que eu queria e eu respondi.

— Eu ouvi. Só não entendi a lógica da coisa. Por que você quer me matar?

— Hoje acordei querendo matar alguém. E decidi que seria a primeira pessoa que estivesse usando uma camiseta verde. – revelou o homem.

Carlos olhou para baixo se certificando da roupa que vestia. Com um suspiro, lamentou que aquela fosse a única limpa e passada dentro da gaveta.

— Você não pode matar alguém assim… sem motivo. – argumentou.

— Mas, eu tenho motivo. Você tá com uma camiseta verde. Esse é o meu motivo.

— Isso é um absurdo! Não se pode matar uma pessoa só por causa da roupa que ela veste. Tem que haver outro motivo!

O homem franziu a testa e Carlos notou que tinha conseguido plantar a semente da dúvida naquela mente assassina. Sabia que agora precisaria regá-la para salvar sua vida e prosseguiu:

— A vida de alguém é uma coisa muito valiosa. Acredito que a pessoa precisa fazer algo muito grave, digno de desprezo, para merecer morrer. E isso não inclui a escolha das roupas que veste, entende? Já pensou se existisse um clube de assassinos e você comentasse entre seus colegas que matou alguém só porque estava usando uma camisa verde? Acha que seria respeitado por isso ou seria motivo de chacota?

— Bem… nesse caso… acho que seria chacota… – disse o homem confuso.

— Exatamente! Entendo que você tenha aí esse seu desejo de matar, mas vai desperdiçá-lo dessa maneira? É melhor guardá-lo para uma ocasião melhor. Enquanto isso, você pode se distrair com outras coisas… Vai treinar sua pontaria atirando nos gatos da rua… ou em pombos. Eu sei que não é a mesma coisa de matar um ser humano, mas já deve dar algum alívio, né?

De repente, a expressão no rosto do assassino ficou serena, como se toda a angústia e confusão que sentia tivessem se evaporado em questão de segundos. Foi como se uma palavra mágica revelasse a saída do labirinto moral em que se encontrava.

Carlos percebeu a mudança no homem. Porém, não queria ficar ali mais tempo celebrando sua vitória. Avistou um ônibus no final da rua e decidiu que entraria nele independentemente de seu itinerário.

Mas, suas pernas não obedeceram o comando para levantá-lo do banco. E o braço, tão desobediente quanto, não fez o gesto indicando ao motorista que deveria parar ali.

Parecia que sua mente não estava mais no controle de seu corpo. Aparentemente, os pedaços que voaram de seu crânio estourado eram fundamentais para o pleno funcionamento de seu cérebro.

O ônibus passou direto, deixando para trás o assassino caminhando tranquilamente pela calçada, com a pistola ainda fumegante dentro do bolso de sua jaqueta. Voltava satisfeito para sua casa, onde brincaria com os doze gatos que criava.

Para Carlos, restou a escuridão e uma camiseta verde ensanguentada.

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