Chapéu Vermelho

As pessoas sempre procuram alguém para fazer aquilo que elas não sabem ou não gostam de fazer. Essa é a essência que movimenta o mercado da sociedade. Por mais competente que o indivíduo seja, sempre existirá algo que ele não faça direito.

Foi essa percepção que fez Ribeiro se especializar em uma nova profissão. Há dez anos estava desempregado e hoje é uma referência em um trabalho que basicamente se resume a fazer algo que ninguém faria de bom grado.

Mesmo assim, passando de um vagabundo a um profissional bem sucedido em algo tão peculiar, ele também precisa de ajuda para executar uma atividade relativamente simples. Porque é assim que funcionam as engrenagens da vida.

Acontece que Ribeiro não gosta de entrar em lojas de roupas. Na verdade, não gostar é pouco. Ribeiro não suporta o atendimento superficial daqueles vendedores. Então, recorre à sua mãe para lhe ajudar nesse quesito.

É por isso que agora ele está encostado em seu carro, fumando um cigarro enquanto espera sua progenitora trazer o que encomendou para executar mais um trabalho. É importante dizer que por azar, ou ironia do destino, ele necessita de um chapéu novo para cada contrato que pega. É como se fosse uma espécie de marca registrada que ele tem.

Todos os seus clientes o conhecem como o Homem do Chapéu. Em sua casa há mais de cem chapéus organizados em uma estante, cada um com uma história diferente escondida em suas abas.

A mãe chegou e ele logo foi conferir sua mais nova aquisição. Porém, não escondeu sua decepção:

— Vermelho, mãe? A senhora comprou um chapéu vermelho?

— Sim. Qual é o problema?

— O problema é que chama muita atenção e eu não gosto de chamar a atenção…

— Deixa de ser besta. Esse é o mais bonito que tinha na loja. Mas, se tiver achando ruim, vai comprar você mesmo da próxima vez.

Relutante, Ribeiro jogou o chapéu dentro do carro. Sabia que não tinha escolha, pois nem ele e nem ela voltariam na loja para trocá-lo por outro. Os dois por motivos diferentes, é claro.

Mais tarde, ele conferiu a hora combinada e foi trabalhar. Chegando ao local indicado pelo contratante, não teve dificuldade para estacionar pois a rua estava vazia. Então, Ribeiro saiu do carro com seu chapéu vermelho e foi em direção ao endereço que lhe foi passado.

Era um pouco mais das onze horas da noite quando ele tocou a campainha da casa e, conforme foi lhe informado, uma mulher bonita, alta e com os cabelos cacheados abriu a porta. Naquele instante, ele não teve dúvidas que estava no lugar certo.

A mulher tencionou lhe perguntar, de forma solícita, o que ele desejava, mas não foi preciso. Ribeiro era um profissional e dispensava cerimônias.

Sem que qualquer palavra fosse emitida, ele sacou sua glock 43 e disparou duas vezes contra a cabeça da mulher, que caiu morta sem ter ideia do que tinha acontecido. Não poderia ser diferente, afinal mesmo se quisesse, e tivesse tempo, Ribeiro não poderia ajudá-la explicando os motivos de sua morte. Pois, também não os conhecia. Só estava ali para executar o trabalho que alguém não queria fazer pessoalmente.

Voltou para o carro, repousou o chapéu sobre o banco do passageiro e foi para a casa organizar o mais novo item de sua coleção.

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