Nunca se sabe

Você passa quatro anos estudando, achando que é a pior fase da sua vida, e depois descobre que dentro daquele canudo não tem um diploma, mas um título de desempregado. Acorda na manhã seguinte à formatura, percebe que não tem mais motivo para sair de casa e compreende o sentido da frase de que tudo pode piorar.

Eu tinha acabado de me formar na faculdade. Distribuí mais de 100 currículos pelas escolas da cidade esperando que pelo menos uma estivesse precisando de um professor de Artes. Já estava no meio do mês de março e o desespero tomava conta de mim.

Naquele dia, eu fiquei sentado ao lado do telefone como um cão de guarda esperando por uma ligação. Na época, a gente ainda usava telefone fixo e eu não podia deixar que alguém ocupasse a linha. Queria evitar todos os riscos.

Porém, o destino é um sujeito ardiloso e vive aprontando pra cima das pessoas, como se fossem marionetes de uma tragédia grega orquestrada por ele. Como todo ser humano, também tenho minhas necessidades biológicas e precisei ir ao banheiro, dando início àquele roteiro inescrupuloso que marcaria a minha vida.

Quando voltei, meu pai estava com o telefone nas mãos. Fiquei irritado e falei pra ele colocar o aparelho no gancho. Talvez eu tenha gritado. Não consigo me lembrar direito, afinal foi algo tão impulsivo que nem notei. Na lembrança construída em minha memória, eu acho que gritei.

O fato é que ele desligou na mesma hora e pediu desculpas. Assustado e com os olhos cheios de culpa. Todo mundo lá em casa sabia que eu estava esperando uma ligação, mas sabe como são os pais, né? Eles sempre se esquecem das coisas que a gente fala.

Antigamente eu pensava que era por implicância, mas hoje em dia, que também sou pai, entendo que nossa memória não é mais a mesma quando os dramas da juventude são completamente insignificantes diante do acúmulo de boletos vencidos.

Depois disso, meu pai foi pra cozinha e ficou lá com a minha mãe, resmungando alguma coisa sobre ela ter me mimado demais. Parece que a ligação era para pedir um paracetamol, pois estava com dor nas costas e não queria ir a pé na farmácia. Ou era minha mãe que sentia dores nas costas. Não sei direito, pois não prestei muita atenção.

Só vi quando ele passou por mim bufando, pegando as chaves do portão para ir até a farmácia que ficava perto de casa. Eu continuei lá no sofá, plantado ao lado do telefone, à espera do acontecimento que mudaria meu destino.

Não precisei esperar muito mais para ele chegar. O local foi na esquina da minha casa, com um carro desgovernado subindo na calçada e atingindo meu pai, que caminhava tranquilamente com a caixinha de remédio na mão.

Morte imediata. Ele foi arremessado a mais de 20 metros de distância. Sentado no sofá, ainda ouvi o som dos pneus fritando no asfalto seguido pelo estrondo da lataria se chocando ao corpo dele. Foi tão alto que, na hora, pensei ter sido um acidente entre dois carros.

O telefone tocou. Atendi e era uma escola interessada em meu currículo. A mesma em que trabalho até hoje. Enquanto eu agendava a entrevista, vi minha mãe passando apressada para ver o que tinha acontecido. Movida pela curiosidade típica das donas de casa.

Desliguei o telefone eufórico para dar as boas novas aos meus pais. Porém, só minha mãe entrou pela porta da sala novamente. Com os olhos cheios de lágrimas. Em choque. Não conseguiu falar nada. Logo depois alguns vizinhos chegaram para ampará-la e foi então que entendi tudo.

Como se tivessem mudado uma chave da voltagem do meu coração, a alegria que eu sentia desapareceu no ar, como se saísse de mim pelas lágrimas que escorriam em meu rosto.

Até hoje não consigo parar de pensar o que teria acontecido se eu tivesse deixado meu pai pedir o remédio por telefone. Ou que poderia ter sido mais amável em minha última conversa com ele…Tanta coisa poderia ter sido diferente.

Mas, é como dizem, nunca se sabe quando quando será a última vez.

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Aquilo que não se fala mais

Estavam deitados na cama com seus corpos cobertos apenas por uma manta de microfibra vermelha. A mulher estava deitada sobre o braço direito do homem e segurava o celular com as duas mãos, como se fosse uma oferenda aos céus. Estavam assistindo ao vídeo que era reproduzido na tela do aparelho. Uma série que os dois acompanhavam juntos.

Ela estava mais concentrada no episódio, enquanto ele observava a covinha que se formava na bochecha dela toda vez que sorria por causa de algum personagem.

Tomado por um impulso que contrariava todos os instintos da racionalidade, ele quebrou o silêncio que pairava entre eles:

— Quer namorar comigo?

— Credo. Não se faz mais esse tipo de pergunta.

— Por que não?

— Porque é brega. – ela respondeu enquanto pausava a série na tela do celular.

— É que eu tô afim de você.

— Isso também não se fala mais…Agora, se diz que tem um crush na pessoa.

— Crush? Isso parece nome de chocolate.

— Pois é… viu como você tá por fora?

— E como se começa a namorar hoje em dia?

— Acontece naturalmente. As pessoas vão saindo, saindo, saindo… e pronto. Estão namorando.

— Então a gente já tá namorando?

— Claro que não! Tá doido? Nós somos amigos.

— Mas, a gente acabou de transar.

— Amigos também podem transar. Não tem nada demais nisso.

— Que estranho. E qual é a diferença desse tipo de amizade pro namoro?

— Namoro dá muito trabalho…

Então, com o dedo indicador da mão direita, ela deu o comando para o vídeo retornar a reprodução de onde havia parado. E ele se ajeitou no travesseiro e voltou a observar as covinhas dela.

Andar de cima

Ela revirou os olhos, agarrou o travesseiro e colocou sobre seu rosto, como se quisesse se sufocar. Virou para um lado para o outro, mas, não adiantou. O sono foi embora e não deixou sinais de que voltaria tão cedo.

Olhou para o relógio do seu celular. Eram três horas e alguns minutos da madrugada. Sentiu ódio e bufou ao lembrar que teria que levantar às seis horas da manhã.

Fechou os olhos como se pudesse obrigar seu corpo a dormir. Em vão. Se sono fosse um substantivo concreto, sem dúvida ela o caçaria, cravaria suas unhas no corpo dele e o arrastaria a força até aquele quarto.

Estava desesperada. Mentalmente, xingou o vizinho de cima com todos os palavrões que conhecia e mais alguns que inventou na hora.

Não havia cabimento alguém arrastar móveis em casa durante a madrugada. Era inadmissível. Algo de quem não tinha a mínima noção de boa convivência. Total falta de consideração com o próximo.

Por diversas vezes, ela sentiu vontade de pegar o elevador e bater na porta dele para pedir silêncio. Porém, ao contrário do vizinho, zelava pelas boas condutas de educação.

Sem conseguir dormir novamente, ouviu o despertador tocar. Levantou da cama, se arrumou e saiu de casa furiosa.

Chegando ao térreo, ao lado do porteiro, viu um objeto sobre o balcão de granito que iluminou suas ideias e lhe encheu de esperança.O livro de ocorrências.

Não pensou duas vezes e foi até ele. Escreveu em uma página inteira sua reclamação contra o morador do apartamento 305. Detalhou o quanto ele era inconveniente ao arrastar os móveis de sua casa durante a madrugada, todos os dias no mesmo horário.

Lembrou que haveria uma reunião do condomínio naquela noite e esperava que ainda estivesse em tempo do assunto ser posto em pauta.

Passou o dia inteiro pensando nisso. Salivava sentindo o gosto doce de vingança brotar em sua boca. Desejava que aquele cretino levasse uma multa generosa e sentisse o preço de seu descaso pesando no próprio bolso.

Mais tarde na reunião, checou a pauta e dentre os temas listados, verificou que tinha desde a reforma da quadra poliesportiva  aos trotes que o condomínio estava recebendo. Mas, nada sobre barulhos que moradores faziam de madrugada. Ficou irritada.

Estava inquieta na cadeira quando o síndico começou a falar. Decidiu que assim que tivesse uma oportunidade, ela iria pedir a palavra e fazer a reclamação ali mesmo. Ao vivo. Na frente de todo mundo.

Porém, o síndico olhou em sua direção e pareceu falar diretamente com ela. Com certo ar de reprovação. Ficou confusa e deu uma trégua em seus pensamentos maléficos para prestar atenção no que era dito por aquele homem pedante:

— É preciso ter consciência. Afinal, estamos lidando com pessoas exercendo o seu trabalho. – Ela entendeu que ele ainda estava falando sobre os trotes.

Já ia voltar para seu plano de expor o vizinho, quando algo naquela fala lhe trouxe a sensação de ter mergulhado numa banheira cheia de cubos de gelo:

— E o mais absurdo nisso tudo, é que não são apenas crianças que fazem esse tipo de coisa. – revelou o síndico. – Tem moradores adultos que estão usando o Livro de Ocorrências pra fazer piadas com esses trabalhadores. Inclusive, alguém não respeitou nem a memória da Dona Neusa, que morava sozinha e, como todos nós sabemos, morreu na semana passada. Não vou citar nomes, mas esse indivíduo disse que ouvia o som dos móveis se arrastando dentro do apartamento dela às 3 horas da madrugada. Eu não sei nem se posso chamar isso de brincadeira, de tão desrespeitoso que foi. Como pode alguém ter coragem de assustar nossos funcionários com essas baboseiras dos filmes de terror? É revoltante! Peço para que todos tenham bom senso e parem com esse tipo de coisa. Bom, agora vamos para o próximo item da pauta…

Ela estava em choque. Não ouviu mais nada do que foi dito depois daquilo. Lembrava de escutar algo sobre o acidente que matara a simpática senhora que lhe cumprimentava no elevador, mas, estava tão distraída nos últimos dias que não se atentara para um detalhe importante.

Se levantou e foi até o painel do interfone, onde tinha o nome e o número do apartamento de cada morador do prédio. O dedo indicador ajudou a não se perder na lista. Chegou no apartamento 305 e sentiu o coração bater na garganta quando leu o que estava escrito ao lado daquele número.

“Marineusa Cristina”. Era a sua vizinha do andar de cima.

O fim do namoro

As lágrimas saíram dos olhos dele e percorreram seu rosto até se empossarem sobre o bigode de sua barba:

— Por favor, não faz isso. Eu te imploro! Vamos conversar…

Ela até viu sinceridade no rosto dele, mas já estava decidida. Não voltaria mais atrás. Desde o primeiro dia que se conheceram, ela havia alertado que não aceitaria uma traição.

O arrependimento não muda o fato. Era nisso em que ela acreditava e por isso não cedeu às súplicas desesperadas do homem:

— Sei que eu errei, mas você está exagerando. Pelo amor de Deus! Presta atenção no que você está fazendo! Você tem que me ouvir.

Mas, ela não ouviu. Se aproximou do corpo dele sem camisa. Ele estava com as mãos atadas para trás e havia uma letra x em sua pele, um palmo acima do umbigo.

Ela sentiu a respiração dele pela última vez antes de enfiar uma faca na marca desenhada com pincel atômico em seu peito.

Os olhos dele se arregalaram. Pareceu que queria dizer alguma coisa, a última coisa, mas emitiu apenas um som engasgado. Um grunhido.

Sem falar nada, ela girou a faca e sentiu o sangue quente e espesso encharcar suas mãos delicadas, matando sua sede de vingança.

Fez com o coração dele o mesmo que ele havia feito com o dela. A diferença é que só um dos sofrimentos teria um fim.

O resultado do vício

Ela chegou e o encontrou no sofá com os olhos arregalados e estáticos. Chamou pelo seu companheiro, mas não obteve resposta.

O mau cheiro que exalava do corpo dele entrou pelas suas narinas e seu estômago embrulhou. A casa estava do mesmo jeito que havia deixado há uma semana, como se nenhuma presença de vida tivesse passado por ali nos últimos dias.

Seus sentimentos não se sustentaram dentro do peito e sua fala saiu bem mais alta do que esperava. Foi quase um grito:

— Amor! Você está me ouvindo?!

Então, como se sua voz o resgatasse do tártaro, ele deu sinais de consciência. Um pouco desorientado ainda:

— Hãn… Oi? Ah… é você? Já chegou?

— Há uns vinte minutos!

— Pensei que fosse voltar de viagem só na sexta-feira.

— Hoje é sexta.

— Sério? Nossa… comprei um jogo novo e acabei me distraindo.

— Tô percebendo. Você tomou banho?

— Tomei…

— Que dia?

— Na quarta.

— Você não tem vergonha? Um adulto deixando suas responsabilidades de lado por causa de videogame?!

— Mas, amor, esse é o novo GTA! O jogo não acaba nunca… toda hora aparece uma missão nova!

Ela partiu determinada em sua direção e arrancou o controle das mãos do marido:

— Não acredito que você comprou o novo GTA!

Sentou-se no sofá e começou a navegar pelo menu do jogo, apertando todos os botões que conhecia. Não conseguiu conter sua empolgação:

— É verdade que dá pra transformar todo mundo em zumbi?! Deixa eu jogar!

E, depois disso, viveram juntos para sempre. Dentro de casa.

P.Q.P.

A decoração no lobby do prédio era composta por três vasos grandes com plantas de plástico e dois sofás brancos. Formavam uma combinação harmônica, entretanto, ignorada pelas pessoas que tinham destino certo e passavam direto para os elevadores.

Bem ali entre aqueles móveis vazios, tão desprezadas quanto, estavam duas crianças. Um menino e uma menina.

Os dois eram irmãos e brincavam tranquilamente, sentados no chão de porcelanato, como se estivessem em um cômodo da própria casa. A menina aparentava ser a mais velha. Não muito. Uns três anos, talvez.

Enquanto tentavam montar um robô com uns blocos coloridos de plástico, o menino ouviu sua barriga roncar:

— Acho que quero uma bolacha de chocolate.

— Não se diz bolacha. O nome correto é biscoito.

— Quem disse? – perguntou o menino curioso.

— É o que tá escrito na embalagem.

— Eu ainda não sei ler.

— Pode acreditar em mim…

— Mas, o que importa é que eu tô com fome! Vamos subir pra comer bis-coi-to.

— A gente não pode subir agora.

— Por que?

— Porque a mamãe tá trabalhando e pediu pra gente esperar por ela aqui.

— Mas, eu tô com fome!

— Não vai demorar muito. Rapidinho ela termina e desce pra buscar a gente.

As crianças continuaram brincando com as peças de montar, porém com menos empolgação. A menina conseguia controlar mais suas emoções, mas era possível notar que ambas estavam entediadas.

Quando o elevador emitiu o som característico que havia chegado naquele andar, os irmãos direcionaram seus olhares curiosos, quase suplicantes, para as portas metálicas que se abriram.

Eles viram apenas um homem saindo de lá, ajeitando a camisa dentro da calça. Estava com os cabelos úmidos e aparentava estar atrasado para algum compromisso, pois passou apressado pelo hall, sem olhar para os lados. Em segundos, já estava na calçada da rua procurando o carro que havia estacionado ali perto.

— Aquele não era o moço que subiu para trabalhar com a mamãe? – perguntou o menino.

— Acho que sim.

— Tomara que seja ele! Não aguento mais esperar para comer uma bo… digo… um biscoito de chocolate. – revelou preocupado em usar a palavra que acabara de aprender.

— Lembre-se que a gente ainda vai jantar e a mamãe não gosta que você coma besteira antes da janta.

Antes que iniciassem uma possível discussão sobre a quantidade de biscoitos que poderiam comer sem perder o apetite, viram a mãe saindo de outro elevador e correram para abraçá-la.

— A senhora já tomou banho, mãe? – perguntou a menina observando os cabelos molhados da mulher.

— Já. E daqui a pouco vocês vão tomar também.

— Ah não! Banho não. Ainda tá cedo… nem começou a novela. – resmungou o menino.

— Deixa de ser porquinho. Agora me diga, você se comportou direitinho?

— Ele só deu trabalho na hora que queria comer bolacha antes de jantar… – informou a menina.

— Mentira dela, mãe!

— Eu tô mentindo?

— Tá! Porque não é bolacha que se fala. É biscoito!

Os três sorriram e entraram no elevador abraçados. Chegando em casa, as crianças foram tomar banho.

Enquanto estava se vestindo, a menina ouviu a mãe conversando com alguém no telefone. Aparentemente ela teria mais um trabalho naquela noite. Então, a menina suspirou, foi ao encontro do irmão que estava na cozinha e também comeu alguns biscoitos de chocolate prevendo que a janta atrasaria.

Palavras cruzadas

Fonseca acordava com a mesma sensação de um presidiário riscando a parede da cela para controlar a pena imposta. Porém, no seu caso, não era necessariamente liberdade o que desejava. O sentimento era apenas o de subtrair mais um dia daqueles que ainda restavam em sua vida.

Seus dias não eram muito agitados. Acordava bem cedo, pois se ficasse muito tempo deitado na cama sentiria dores no corpo inteiro. Então, realizava sua higiene pessoal, fazia o café e colocava ração para Lancelot, um gato amarelo que lhe fazia companhia. Em seu apartamento, moravam apenas ele e o animal de estimação.

Depois disso, ia até a varanda, acendia um cigarro e ficava ali observando a agitação das pessoas na rua até dar a hora de sair para almoçar. Voltava do almoço, assistia televisão e ficava ali no sofá o resto do dia. Levantava apenas para fumar na sacada. Nas primeiras horas da noite, o sono lhe abraçava e ele ia para o seu quarto dormir.

Fonseca ainda não sabia, mas aquele seria o último dia daquela rotina maçante.

Ele tinha apenas dois amigos, Nelson e Álvaro. Durante muito tempo, Fonseca foi um homem de muitas amizades, porém, aos 72 anos, aqueles foram os únicos que restaram vivos.

Por volta das 11 horas da manhã, ele desceu pelo elevador do prédio e partiu em direção  ao restaurante onde o trio se encontrava todos os dias para o almoço.

A pé e sem pressa, a caminhada durou um pouco mais de dez minutos. Antes de entrar no estabelecimento, sentiu algo diferente. Um frio na barriga. Outra pessoa teria chamado aquela sensação de pressentimento, porém, Fonseca já não acreditava mais nessas coisas.

Então, sem se importar com aquilo, abriu a porta do restaurante e foi ao encontro de seu destino.

No interior do restaurante, logo identificou os amigos Nelson e Álvaro, que estavam sentados na mesma mesa que sentavam todos os dias:

— Finalmente! Pensei que não viesse mais.

— Para de encher o saco dele, Nelson! É melhor chegar atrasado do que cair na calçada tentando andar rápido. Pode até quebrar a bacia ou coisa parecida.

— Isso pode acontecer mesmo. Semana passada uma vizinha minha lá do prédio tropeçou na rua e agora só anda de cadeira de rodas. – ponderou Nelson.

— Vamos parar de falar merda? Sobre o que vocês estavam conversando antes? – interrompeu Fonseca.

— Eu tava falando pro Nelson que o título de 89 é do Sport. Só que ele é um velho teimoso e insiste em dizer que o Flamengo foi campeão daquele ano!

— De novo esse assunto?

— É claro! E vamos conversar sobre isso quantas vezes mais for preciso pro Álvaro entender que não se pode mudar as regras no meio do campeonato!

Fonseca não estava com paciência para acompanhar aquela discussão novamente e foi para o balcão do restaurante. Uma decisão inusitada que mudou completamente o seu futuro.

Mesmo sem ter conhecimento da consequência de seus atos, os dados foram lançados no tabuleiro da vida, como se ele fosse uma pecinha de um grande jogo de RPG.

Fonseca abriu o jornal sobre o balcão e pediu uma caneta para fazer as palavras cruzadas.

Ficou ali durante alguns minutos concentrado no passatempo que praticava desde a infância, com os jornais furtados das casas de onde a mãe trabalhava como doméstica.

Depois de tantos anos, havia se tornado um tipo de especialista naquilo. Preenchia os quadradinhos vazios com certa facilidade, porém, como já foi dito, aquele não era um dia comum.

Uma palavra em particular roubava a sua paz. O suor brotava em sua testa e seu coração palpitava por causa de um sentimento que se aproximava do ódio:

— Mas, que caralho é esse de “famosa cerâmica produzida por índios da região amazônica”?!

Quando percebeu que as palavras tinham escapado de sua boca ao invés de ficarem guardadas em sua mente raivosa, sentiu as bochechas ficarem vermelhas de vergonha por causa dos olhares curiosos que os demais fregueses lançaram em sua direção.

Naquele horário, o lugar era frequentado majoritariamente por pessoas com mais de 60 anos. Entretanto, um palavrão em um local público sempre era motivo de estranheza. Isso não mudava com a idade.

Uma mão tocou em seu ombro e Fonseca se preparou para ouvir um sermão de algum fanático religioso querendo cagar regra. Engatilhou vários xingamentos na ponta da língua para revidar.

Mas, quando se virou, viu uma mulher de cabelos cacheados, tingidos de vermelho, usando óculos de grau com armação tartaruga. Ela sorriu e perguntou:

— Quantas letras?

— Nove. – respondeu confuso.

— Marajoara. – informou a mulher.

Naquele instante Fonseca soube que havia encontrado bem mais do que a última palavra para concluir seu jogo.

Teve certeza de que era ele quem estava completo.

Paixão no trânsito

Uma vez li uma poesia sobre uma paixão que nasceu dentro de um ônibus. Achei linda e lembrei das minhas paixonites que tive na época em que ainda utilizava o transporte público.

A leitura foi boa, mas não gostei da ideia que passou, como  se fosse uma exclusividade e não houvesse mais romantismo ao utilizar o carro como meio de transporte. Acho que isso é besteira.

É claro que pode acontecer uma paixão no trânsito. Agora mesmo estou parada em um engarrafamento e acho que está rolando um clima entre eu e o motorista da sandero vermelha que está na faixa ao lado.

Trocamos alguns olhares e ele sorriu pra mim, mas a faixa dele andou um pouco e ele parou na distância de uns três carros na minha frente.

Logo também chega a minha vez de andar e devo parar ao lado dele novamente. Pretendo passar meu telefone para ele. Inclusive, já vou deixei anotado em um pedaço de papel.

Como um animal faminto observando sua caça, não tiro os olhos da sandero vermelha. Dessa forma, noto que o motorista está olhando pelo retrovisor.

Será que está pensando o mesmo que eu?

Descubro que não! Finalmente minha faixa começou, porém, percebendo a movimentação no trânsito, o filho da puta mudou de faixa sem dar seta.

Ele entrou na minha frente bem na hora que eu ia andar. Maldito! Era a minha vez! Por um acaso ele acha que a pressa dele é mais importante que a minha?

Ainda por cima, o filho da puta quase derrubou um motoqueiro! E para completar, olha lá o caralho do sinal fechando.

Agora tenho que esperá-lo abrir de novo por causa da porra da sandero vermelha! Porque aquele cara é um egoísta que só pensa no próprio umbigo. Tomara que capote, morra e vá direto para o inferno, onde sua alma ficará queimando lentamente durante toda a eternidade!

Em pensar que cogitei me envolver com aquele escroto… Quero é que se foda!

Camiseta verde

Carlos estava sentado na parada de ônibus quando um homem sentou ao seu lado e o encarou fixamente:

— Pois, não? Deseja alguma coisa? – perguntou Carlos.

— Sim. Eu quero te matar.

— O que? Como assim?!

— Você perguntou o que eu queria e eu respondi.

— Eu ouvi. Só não entendi a lógica da coisa. Por que você quer me matar?

— Hoje acordei querendo matar alguém. E decidi que seria a primeira pessoa que estivesse usando uma camiseta verde. – revelou o homem.

Carlos olhou para baixo se certificando da roupa que vestia. Com um suspiro, lamentou que aquela fosse a única limpa e passada dentro da gaveta.

— Você não pode matar alguém assim… sem motivo. – argumentou.

— Mas, eu tenho motivo. Você tá com uma camiseta verde. Esse é o meu motivo.

— Isso é um absurdo! Não se pode matar uma pessoa só por causa da roupa que ela veste. Tem que haver outro motivo!

O homem franziu a testa e Carlos notou que tinha conseguido plantar a semente da dúvida naquela mente assassina. Sabia que agora precisaria regá-la para salvar sua vida e prosseguiu:

— A vida de alguém é uma coisa muito valiosa. Acredito que a pessoa precisa fazer algo muito grave, digno de desprezo, para merecer morrer. E isso não inclui a escolha das roupas que veste, entende? Já pensou se existisse um clube de assassinos e você comentasse entre seus colegas que matou alguém só porque estava usando uma camisa verde? Acha que seria respeitado por isso ou seria motivo de chacota?

— Bem… nesse caso… acho que seria chacota… – disse o homem confuso.

— Exatamente! Entendo que você tenha aí esse seu desejo de matar, mas vai desperdiçá-lo dessa maneira? É melhor guardá-lo para uma ocasião melhor. Enquanto isso, você pode se distrair com outras coisas… Vai treinar sua pontaria atirando nos gatos da rua… ou em pombos. Eu sei que não é a mesma coisa de matar um ser humano, mas já deve dar algum alívio, né?

De repente, a expressão no rosto do assassino ficou serena, como se toda a angústia e confusão que sentia tivessem se evaporado em questão de segundos. Foi como se uma palavra mágica revelasse a saída do labirinto moral em que se encontrava.

Carlos percebeu a mudança no homem. Porém, não queria ficar ali mais tempo celebrando sua vitória. Avistou um ônibus no final da rua e decidiu que entraria nele independentemente de seu itinerário.

Mas, suas pernas não obedeceram o comando para levantá-lo do banco. E o braço, tão desobediente quanto, não fez o gesto indicando ao motorista que deveria parar ali.

Parecia que sua mente não estava mais no controle de seu corpo. Aparentemente, os pedaços que voaram de seu crânio estourado eram fundamentais para o pleno funcionamento de seu cérebro.

O ônibus passou direto, deixando para trás o assassino caminhando tranquilamente pela calçada, com a pistola ainda fumegante dentro do bolso de sua jaqueta. Voltava satisfeito para sua casa, onde brincaria com os doze gatos que criava.

Para Carlos, restou a escuridão e uma camiseta verde ensanguentada.

A carta

Francisco apagou o fogo que estava sob a panela com água. Despejou o líquido fumegante dentro de um coador encardido e o cheiro do café se espalhou pela casa.

Encheu sua caneca com a bebida e ficou encostado na bancada da cozinha observando seu neto, que estava mexendo no celular.

O teto podia desabar que o garoto não largava aquela coisa! Mas, Francisco tinha desistido de brigar por causa daquele aparelho. Afinal, até ele tinha seus vícios e suas dependências.

Pensando nisso, levou a mão ao bolso da camisa social e pegou o maço de cigarros que estava ali. Era a hora de sua tragada matinal.

Em frente de casa, enquanto soltava uma fumaça azulada no ar como se fosse uma chaminé humana, viu o carteiro aproximando do seu portão.

O homem de camiseta amarela enfiou alguns papéis na caixinha e Francisco arremessou seu cigarro, ainda pela metade, na calçada e foi conferir as correspondências.

Pegou um envelope que se destacava dos outros e o abriu com cuidado. Retirou duas páginas lá de dentro e o perfume que emanava delas serviu para testar a qualidade do marca-passo instalado no peito do velho.

Seduzido pelas palavras escritas em letras cursivas, não viu quando seu neto passou correndo por ele com uma bola na mão.